poesia . fotografia . & etc.


Talvez o mundo não seja pequeno / Nem seja a vida um fato consumado . Chico Buarque de Hollanda, com Gilberto Gil








sábado, 15 de agosto de 2015

das fotografias dos outros


Fui resistindo a pôr aqui fotografias feitas por outros, não sendo apenas ilustrativas ou a acompanhar textos.  Não faz sentido: o nosso olhar olha também através do olhar dos outros.




 raquel moreira

vista aqui




 

terça-feira, 11 de agosto de 2015

música de anónimo



No Ípsilon, suplemento do jornal Público (edição de 07/08/2015), Maria da Conceição Caleiro escreve sobre Música de Anónimo: "O que da vida nos olha no olhar".




(para ler, clicar na imagem)




quarta-feira, 1 de julho de 2015

das palavras dos outros




joão miguel fernandes jorge / in Pelo Fim da Tarde, Quetzal Editores,1989


Era um dia, pelo fim da tarde
o sol descia sobre
o sentimento da vida.
    
         #
Ficaram, por mais tempo, os lábios
erradios do corpo. Ia
pelos algares das torrentes
junto de selvas bravias e escuras.

          #
A noite descia. Arco que
fere a tua carta.
P'los lábios, as sílabas repetidas.

          #
Guardem, também, silêncio as
flores do limoeiro, a laranjeira.
Não sou uma única voz
na manhã do dia que findara.

          #
Estendeu a mão sobre
a hora, alta noite. Sob
o repouso encostou o rosto.

          #
Nos lábios, um sorriso
revelava o arcano do seu coração.

          #
Havia de dizer o íris de maio,
o muro branqueado
a harmonia.







Josef Sudek






segunda-feira, 15 de junho de 2015



sublinhados & notas

Uma nova etiqueta: para registar apontamentos
 de leitura, coisas à margem de livros.

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 Os Amantes da Fronteira  | Tiago Novaes | col. pequenos exílios | Dobra Editorial | São Paulo, 2014


A ORIENTE DO ORIENTE

Ao ler Os Amantes da Fronteira de Tiago Novaes, pensei muitas vezes nuns versos de Álvaro de Campos, o heterónimo pessoano mais próximo da ideia de viagem enquanto ansiada experiência de plenitude, acompanhada do seu irmão quase gémeo, o sentimento do vazio. Em "Opiário": É antes do ópio que a minh'alma é doente. / Sentir a vida convalesce e estiola / E eu vou buscar ao ópio que consola / Um Oriente ao oriente do Oriente.

Há sempre, portanto, um oriente para cada oriente e a viagem à Tailândia que ocupa o livro de Tiago Novaes pertence a esta genealogia: busca de si e do mundo eternamente insatisfeita, demanda que é também, como em Campos, fuga para a frente e, daí a muito pouco, virá a ressaca da euforia das sensações. Desta vez é a viagem de Y (que foge, aliás, de outros desencontros, na sua obsessão por W), figura exemplar, no seu irradiante anonimato, mas também uma incógnita, para o leitor e para si próprio. 

Mas neste relato que retoma relatos anteriores, relativizando os pontos de vista, predomina um tom que não é o da construção e desconstrução modernistas. Em alternativa, somos levados para uma espécie de letargia conformada, como se a virtualização do mundo e o seu continuado simulacro já não permitissem qualquer narrativa legitimadora que possa dar sentido à experiência do caos. Como na epígrafe de Nerval, "les dieux se sont envolés", incluindo os das utopias vanguardistas. Se este livro se faz de uma discreta arquitectura fluida (puro relato de viagem, meditação existencial, diário, sondagem psicológica, narrativa entre o mítico e o histórico, cenas teatrais, algum lirismo, breves sátiras), talvez a melhor imagem que dele nos fica seja a de uma estética pós-modernista (para usar um rótulo fácil) feita de pequenos videoclips. É o que diz Ártemis, a propósito da sua vida: "-Hoje meus dias se parecem com uma sequência aleatória de pequenos vídeos da internet. Até os mais interessantes são aborrecidos." (p.83). A mimese possível do nosso mundo é essa espécie de inevitável caos narrativo, que é, em boa verdade, uma sábia orquestração de materiais heterogéneos.

Os Amantes da Fronteira (além do mais, um objecto bonito e intenso- capa, badanas, papel, colecção) instala-nos, através  de uma escrita económica e precisa, e sem aviso prévio, na dinâmica de uma dimensão radical da viagem: procurar no mundo uma identidade desde sempre perdida e em metamorfose, arte de nem sequer habitar a simples estranheza de si, errando entre seres também à deriva e infinitamente híbridos- e neste ponto se convocará a parábola fundadora do peixe-gato. Ou o título: da viagem e do amor, a condenação de viver fronteiras.

Destes percursos  sem redenção, mas que mantêm a pulsão do encontro com um estado original e originário, onde o humano e a natureza enfim se encontrassem, nos dá conta uma personagem feminina inesquecível: Ártemis. Como na mitologia antiga, é um ser predador, selvagem e sintonizado com o mistério lunar. Sofre  uma via crucis pessoal que assume uma violenta sexualidade, na fronteira entre o humano e o desumano, como se, na anulação de si, se pudesse alcançar uma impossível virgindade. Descrever e tornar verosímil  um excesso assim é, sem dúvida, um dos motivos do virtuosismo desta narrativa.


   
Se não existe, de facto, tradução exacta para nada, como explica Y, este livro tem a rara virtude de nos dar da viagem e do amor a própria vertigem de atravessar territórios, e explica-nos, então, com detalhe e o método possível,  a intraduzibilidade essencial da vida. Compromete-se apenas a buscar mais um oriente do oriente ou, como diria Beckett, a falhar o melhor possível.

jmts. 





 

segunda-feira, 25 de maio de 2015

processos sumários





Um novo poema do ciclo na Enfermaria 6 :
"Questões Pedagógicas"  







Na verdade, ao ensinar, instalamo-nos / em salas ligeiramente ao lado




art deco font 
from book on lettering art (ca. 1920 - 1930)
imagem vista aqui







terça-feira, 12 de maio de 2015

  # Em Agenda #


Em metade da minha vida tenho obrigação de usar o novo acordo ortográfico (escola, relatório certinho, etc.); na outra sinto a obrigação íntima de não, naqueles textos em que exactamente evito o comodismo de escrever "etc". Reparando bem, esta última metade da minha vida é um pouco maior.




  sem título | João Vieira | 1972





terça-feira, 28 de abril de 2015



OTERCEIROTEXTO



O dilema é o seguinte: numa boa tradução, os dois textos de partida 
e de chegada deveriam ser avaliados por um terceiro inexistente.

Paul Ricoeur, Sobre a Tradução (Cotovia, 2005)




Traduzir poesia é, como sabemos, impossível, mas faz-se e é útil. Alarga-nos os horizontes e evita que, enquanto poetas, estejamos sempre a descobrir o fogo ou a roda. Paul Ricoeur, no seu Sobre a Tradução (Cotovia, 2005), explica-nos que sempre se traduziu, facto tão notável como a famigerada incomunicabilidade. É assunto de viajantes, mercadores, embaixadores e espiões. É a esta espécie que pertencem os tradutores de poemas: missão impossível que se faz com paciência e algum ardor, traições, jogo duplo. 

Tenho traduzido poemas de Sinéad Morrissey (Irlanda, 1972). É uma poeta cuja escrita me seduz. Acho-a intensa, sugestiva, provocatória q.b. Fazer versões dos seus textos é para mim aliciante, um corpo a corpo bastante útil enquanto prática de escrita. Para mais, o inglês é uma língua que me oferece resistência, não tenho com ela uma imediata afinidade, e isso é muito interessante como desafio de tradução. Impus-me o projecto de ir trabalhando poemas dos cinco livros que Sinéad Morrissey já publicou.

Trata-se sempre de tentar um texto em português viável enquanto tal, numa liberdade que seja fiel ao que no outro é letra litoral (para usar um título de Eduardo Prado Coelho)- tão letra quanto litoral. Ou algo de preferência mais simples e forte do que estas boas intenções.

As minhas traduções de Sinéad Morrissey têm aparecido na Enfermaria 6, lugar, como sabemos, de frequência problemática (veja-se Tchekhov).


  AQUI








segunda-feira, 6 de abril de 2015




MONTAGEM
para a Paula e para a Sofia

E depois
eram os meninos do aniki-bobó
no campo longo as
tranças a preto e branco o bolso
do calção dava para a varanda do
rio
entre as ervas da chita o
passarinho totó e a estrela dos barcos
O comboio, a queda, o túnel, o túnel


J.M.T.S. in As Súbitas Permanências, Quasi Edições, 2001 (aqui)






  Manoel de Oliveira 1908-2015





domingo, 22 de março de 2015

música de anónimo




Na mais recente edição do Jornal de Letras (nº 1160, 18 a 31/03/2015), na sua "Crónica de Poesia", Fernando Guimarães fala de Música de Anónimo, num texto intitulado "O Lugar e o Ser", em que também aborda um livro de Nuno Higino.




(para ler, clicar na imagem)






sexta-feira, 6 de março de 2015

Ouvem-se Vozes







Billy Collins /Ponto de Viragem
trad. Ricardo Marques
in Amor Universal, Averno, 2014                                                                                                                                      

               leitura: JMTS 

                                                                                                                                                                                                      

quarta-feira, 11 de fevereiro de 2015

música de anónimo






https://companhiadasilhasloja.wordpress.com/livros/musica-de-anonimo/

Música de Anónimo 
[poesia, 2001-2009]




Companhia das Ilhas  aqui
colecção azulcobalto | 026
ISBN 978-989-8592-59-0
Páginas 64
PVP €9
  




quinta-feira, 5 de fevereiro de 2015

das palavras dos outros




fiama hasse pais brandão / in As Fábulas, Quasi Edições, 2002


DA PORTA DE UM POBRE PARAÍSO

A porta entre o jardim e a casa
geme como uma ave insólita
no meu tão parco ouvido.

Mas se uma ave a si mesmo a compara,
sim, ela canta, aviltando ou louvando,
e com a a alegria nas pupilas vivas *.

*Dante, Paraíso, II, 144




DA VERDADE

Eu levava nos braços o meu filho,
nascido há pouco, desconhecido.
Havia uma luz forte nas ruas,
havia risos, vozes chamavam nomes.

Então, além da esquina veio a mulher,
com o vestido preto, com o seu nada:
desconhecido filho, na casa mortuária.

(Acontecido em Maio de 1969)




MADRESSILVAS E TÍLIAS

A uma janela assoma
a clara madressilva;
a outra, as leves, verdes
folhas da tília.

Disputam o meu olhar.
Numa hora lutam
com varas de penumbra.
Noutra, ferem-se em tudo
o que cintila. E no fulgor
nosturno entram nos quartos,
vencendo a negra luz
que avança para os meus olhos.




Ines Seidel, in between
 
imagem vista aqui







terça-feira, 20 de janeiro de 2015

processos sumários

 

 
FUMOS


Começa a noite a cair 
visivelmente e as crianças 
descobrem-se muito antigas

O frio é apenas frio
empurra, solene, as estrelas
que riscam o breu

Nem só dos galhos tudo partia
era preciso explicar outras matérias
prender os fumos na lã das camisolas
com gestos delicados e dobrados alfinetes


No fim, os bons conselhos
enquanto arrumavam 
crepes retintos e sudários


Uma espécie de gaze na paisagem
os olhos condoídos em ferrugem
quase etérea, quase bela
faúlhas que ardiam ao voar

jmts


 Hein Koh- Halo, 2010
 visto aqui




quinta-feira, 8 de janeiro de 2015

das palavras dos outros






e. ethelbert miller / in Falta de Ar, Medula, 2014
 tradução de manuel a. domingos



POSTAIS


Quando foi a última vez que enviaste um postal?
A minha mãe guardou todos os que lhe enviei. A minha irmã
enviou-mos quando a minha mãe morreu. Tinha-me esquecido
que escrevera tantas pequenas notas à minha mãe. O preço dos
selos estava constantemente a mudar. Dizia sempre que estava
a divertir-me. Lembro a primeira vez que menti à minha mãe.
Foi uma pequena mentira talvez do tamanho de um postal.
Tinha ido a um lugar aonde não era suposto ir. Disse à minha
mãe que estivera na biblioteca mas tinha estado com a Judy
naquela tarde. A sua pequena mão dentro da minha mão. Começava
a sentir algo sobre o qual nunca conseguiria escrever para casa.







Doug Beube, série Vector
(2007)





imagem vista aqui

segunda-feira, 29 de dezembro de 2014

processos sumários

 



ACERCA DA PERFEIÇÃO

São importantes as memórias de infância
Escrevemos sempre a partir de exemplos
e, durante algum tempo, os factos
confirmavam a vida imaginada

Existia, nesse livro antigo, um fotógrafo
excelente, no lugar do nome estava escrito  
anon, e era o mais distinto autor
Variedade pródiga das paisagens
flores explícitas, animais que estacavam
e exibiam o carácter selvagem
a nudez profunda e nua dos modelos
Os instrumentos da vida estavam 
só cansados de trabalhos
e de dias, abriam-se em sol
e nas devidas sombras

Alguém acaba por vir explicar
tratava-se afinal de uma cifra abreviada
expediente para dizer anónimo
despojos da  arte verdadeira

Segundo exemplo, a música
que nos soava muito para lá
do número divino, a esplêndida
sétima daquele a quem chamavam
o enorme mestre de Bona

Logo percebemos que era versão
incompleta e, nos visíveis sulcos do vinil
acrescentaram um andamento
de uma oitava ainda não composta

Isto é, etiquetas que enganam
erros no momento de imprimir

Também se escrevem poemas
acerca da perfeição


jmts






 Emma McNally
visto aqui 






quarta-feira, 17 de dezembro de 2014

música de anónimo



Música de Anónimo é um ciclo poético de que aqui se divulgou a maior parte dos textos, ao longo de meses. São os poemas que escrevi entre 2001 e 2009, anteriores a Anima e a O Lugar Que Muda o Lugar, ambos publicados na Língua Morta. Foram esses poemas o pretexto que fez criar este blogue, para que não ficassem apenas na sombra de uma gaveta ou no caderno de rabiscos e imagens, onde estavam, aliás, muito confortáveis. 

Viajam agora para uma edição da Companhia das Ilhas, daqui a algum tempo. Gostam da liberdade de se mudarem de lugar e da ilusória sensação de serem perseguidos.








domingo, 7 de dezembro de 2014

o lugar que muda o lugar




Na página pessoal (aqui) acrescentou-se aos textos já arquivados uma nova leitura sobre O Lugar que Muda o Lugar, da autoria de José Ángel Cilleruelo. A referência está incluída na sua recente publicação Almacén. Dietario de Lugares. Polibea, Madrid, 2014, pp. 53-56. 




http://subito-jmts.blogspot.pt/search?q=Jos%C3%A9+%C3%81ngel+Cilleruelo





terça-feira, 11 de novembro de 2014

Piscinas

 desenho de Ana Abreu 




É água, apenas a serena água
feita de buracos negros, turvações
flechas que rebrilham na sua quietude

Convém sabermos de fundos e correntes
da linha polida do nadar que arrasta
os limos da maré e a fricção das ondas

Mergulhar no corpo que nos afoga em nós
tornar suspensa a vida nesses poços de água


jmts




ana abreu




sábado, 1 de novembro de 2014

das palavras dos outros






gastão cruz / in O Pianista, Limiar, 1984



O TEATRO DAS CIDADES


Qualquer tempo é um tempo duvidoso
assim o meu cercado de cidades
plataformas instáveis
praticáveis cobertos de infinita gente náufraga
que se inclina nas águas como um palco

Paro na convergência dos estrados
chove já sobre a raça ameaçada
Incertas multidões em volta passam
contemporâneas falam interpretam
a duvidosa língua das imagens

Assim no teatro abstracto das cidades
morrem palavras sobre um palco náufrago

O tempo cobre o céu que se enche de água





René-Jacques
L'Homme de nuit, 1939