poesia . fotografia . & etc.

Talvez o mundo não seja pequeno / Nem seja a vida um fato consumado . Chico Buarque de Hollanda, com Gilberto Gil








quarta-feira, 11 de fevereiro de 2015

música de anónimo






https://companhiadasilhasloja.wordpress.com/livros/musica-de-anonimo/

Música de Anónimo 
[poesia, 2001-2009]




Companhia das Ilhas  aqui
colecção azulcobalto | 026
ISBN 978-989-8592-59-0
Páginas 64
PVP €9
  




quinta-feira, 5 de fevereiro de 2015

das palavras dos outros




fiama hasse pais brandão / in As Fábulas, Quasi Edições, 2002


DA PORTA DE UM POBRE PARAÍSO

A porta entre o jardim e a casa
geme como uma ave insólita
no meu tão parco ouvido.

Mas se uma ave a si mesmo a compara,
sim, ela canta, aviltando ou louvando,
e com a a alegria nas pupilas vivas *.

*Dante, Paraíso, II, 144




DA VERDADE

Eu levava nos braços o meu filho,
nascido há pouco, desconhecido.
Havia uma luz forte nas ruas,
havia risos, vozes chamavam nomes.

Então, além da esquina veio a mulher,
com o vestido preto, com o seu nada:
desconhecido filho, na casa mortuária.

(Acontecido em Maio de 1969)




MADRESSILVAS E TÍLIAS

A uma janela assoma
a clara madressilva;
a outra, as leves, verdes
folhas da tília.

Disputam o meu olhar.
Numa hora lutam
com varas de penumbra.
Noutra, ferem-se em tudo
o que cintila. E no fulgor
nosturno entram nos quartos,
vencendo a negra luz
que avança para os meus olhos.




Ines Seidel, in between
 
imagem vista aqui







terça-feira, 20 de janeiro de 2015

processos sumários

 

 
FUMOS


Começa a noite a cair 
visivelmente e as crianças 
descobrem-se muito antigas

O frio é apenas frio
empurra, solene, as estrelas
que riscam o breu

Nem só dos galhos tudo partia
era preciso explicar outras matérias
prender os fumos na lã das camisolas
com gestos delicados e caixinhas de alfinetes


No fim, os bons conselhos
enquanto arrumavam 
crepes retintos e sudários


Uma espécie de gaze na paisagem
os olhos condoídos em ferrugem
quase etérea, quase bela
faúlhas que ardiam ao voar

jmts


 Hein Koh- Halo, 2010
 visto aqui




quinta-feira, 8 de janeiro de 2015

das palavras dos outros






e. ethelbert miller / in Falta de Ar, Medula, 2014
 tradução de manuel a. domingos



POSTAIS


Quando foi a última vez que enviaste um postal?
A minha mãe guardou todos os que lhe enviei. A minha irmã
enviou-mos quando a minha mãe morreu. Tinha-me esquecido
que escrevera tantas pequenas notas à minha mãe. O preço dos
selos estava constantemente a mudar. Dizia sempre que estava
a divertir-me. Lembro a primeira vez que menti à minha mãe.
Foi uma pequena mentira talvez do tamanho de um postal.
Tinha ido a um lugar aonde não era suposto ir. Disse à minha
mãe que estivera na biblioteca mas tinha estado com a Judy
naquela tarde. A sua pequena mão dentro da minha mão. Começava
a sentir algo sobre o qual nunca conseguiria escrever para casa.







Doug Beube, série Vector
(2007)





imagem vista aqui

segunda-feira, 29 de dezembro de 2014

processos sumários

 



ACERCA DA PERFEIÇÃO

São importantes as memórias de infância
Escrevemos sempre a partir de exemplos
e, durante algum tempo, os factos
confirmavam a vida imaginada

Existia, nesse livro antigo, um fotógrafo
excelente, no lugar do nome estava escrito  
anon, e era o mais distinto autor
Variedade pródiga das paisagens
flores explícitas, animais que estacavam
e exibiam o carácter selvagem
a nudez profunda e nua dos modelos
Os instrumentos da vida estavam 
só cansados de trabalhos
e de dias, abriam-se em sol
e nas devidas sombras

Alguém acaba por vir explicar
tratava-se afinal de uma cifra abreviada
expediente para dizer anónimo
despojos da  arte verdadeira

Segundo exemplo, a música
que nos soava muito para lá
do número divino, a esplêndida
sétima daquele a quem chamavam
o enorme mestre de Bona

Logo percebemos que era versão
incompleta e, nos visíveis sulcos do vinil
acrescentaram um andamento
de uma oitava ainda não composta

Isto é, etiquetas que enganam
erros no momento de imprimir

Também se escrevem poemas
acerca da perfeição


jmts






 Emma McNally
visto aqui 






quarta-feira, 17 de dezembro de 2014

música de anónimo



Música de Anónimo é um ciclo poético de que aqui se divulgou a maior parte dos textos, ao longo de meses. São os poemas que escrevi entre 2001 e 2009, anteriores a Anima e a O Lugar Que Muda o Lugar, ambos publicados na Língua Morta. Foram esses poemas o pretexto que fez criar este blogue, para que não ficassem apenas na sombra de uma gaveta ou no caderno de rabiscos e imagens, onde estavam, aliás, muito confortáveis. 

Viajam agora para uma edição da Companhia das Ilhas, daqui a algum tempo. Gostam da liberdade de se mudarem de lugar e da ilusória sensação de serem perseguidos.








domingo, 7 de dezembro de 2014

o lugar que muda o lugar




Na página pessoal (aqui) acrescentou-se aos textos já arquivados uma nova leitura sobre O Lugar que Muda o Lugar, da autoria de José Ángel Cilleruelo. A referência está incluída na sua recente publicação Almacén. Dietario de Lugares. Polibea, Madrid, 2014, pp. 53-56. 




http://subito-jmts.blogspot.pt/search?q=Jos%C3%A9+%C3%81ngel+Cilleruelo





terça-feira, 11 de novembro de 2014

Piscinas

 desenho de Ana Abreu 




É água, apenas a serena água
feita de buracos negros, turvações
flechas que rebrilham na sua quietude

Convém sabermos de fundos e correntes
da linha polida do nadar que arrasta
os limos da maré e a fricção das ondas

Mergulhar no corpo que nos afoga em nós
tornar suspensa a vida nesses poços de água


jmts




ana abreu




sábado, 1 de novembro de 2014

das palavras dos outros






gastão cruz / in O Pianista, Limiar, 1984



O TEATRO DAS CIDADES


Qualquer tempo é um tempo duvidoso
assim o meu cercado de cidades
plataformas instáveis
praticáveis cobertos de infinita gente náufraga
que se inclina nas águas como um palco

Paro na convergência dos estrados
chove já sobre a raça ameaçada
Incertas multidões em volta passam
contemporâneas falam interpretam
a duvidosa língua das imagens

Assim no teatro abstracto das cidades
morrem palavras sobre um palco náufrago

O tempo cobre o céu que se enche de água





René-Jacques
L'Homme de nuit, 1939






sexta-feira, 10 de outubro de 2014

 Piscinas

 desenho de Ana Abreu 




O temporal agitará as piscinas
chegarão pequenos corvos, coloridos
pássaros nas escadas úteis, praticáveis

Vem da baleia branca o ronco das máquinas
estalam depois as barreiras, uma a uma
ceder de paredes, as sucessivas ondas

A água inteira será só a do mar
levando o mar, bandeiras, mínimos sinais


jmts



 ana abreu





 

sábado, 20 de setembro de 2014

processos sumários

 




NIAGARA

[Bert Stern, The Last Sitting, Marilyn]


Recuso esta imagem, faz lembrar
o quarto sossegado sobre a catarata
luz e abismo, os olhos presos

Seria isso um filme, os pássaros 
despertavam muito cedo, uma cena 
perfeita abandonada na versão final
Repetiam-se os sonhos, havia impermeáveis
de amarelo vivo entre as cordas de água
e sobravam sapatos alinhados nos cacifos
Só para que o corpo caísse lento
e elegante, de pedra em pedra
até ao derradeiro esparrinhar
Estava depois escrito o nome fim

Recuso-a com um dedo de sangue
se tudo é apenas a nudez mais despida
pronta para o tacto e as inocentes pisaduras
Sei que acham bela a gravidade
dos seios que começam a pender
o aproximar das pernas unidas 
no ponto onde acaba o retrato

Adereços que daqui a pouco
digamos, seis semanas
se vão desvanecer
deixando alguma espuma
 
jmts




Bert Stern







quinta-feira, 11 de setembro de 2014

das palavras dos outros





rosa maria martelo / in Matéria, Averno, 2014


CORTES


Sobre a mesa iluminada pela luz da tarde, uma jarra de flores expõe a beleza cortada, agonizante, assassinada pelo amor da beleza, que a trouxe para dentro de casa, para morrer. Muito juntas, as flores sobrevivem ainda, e encenam no pouco tempo que resta o mundo de onde vieram. Parecem vivas, quase deixam esquecer que são o grande ramo da morte a emergir de um frasco transparente. A contemplação da beleza: acredita na suspensão absoluta do instante, mesmo se tudo em volta lhe diz que não é bem disso que se trata. Repara, alguns ramos já começam a secar.






Emily Dickinson, Herbarium 
(circa 1839-1846)




  imagem vista aqui



terça-feira, 29 de julho de 2014

segunda-feira, 14 de julho de 2014

Parábola Óptica
teorias portáteis sobre fotografia





Pascal Anders ou Da Ocupação dos Lugares


Pascal Anders 
New York City, 2010
Alphabet City, 2011
Paris Est Tout Petit., 2011
Lothringen, 2013


São quatro dos livros do fotógrafo (ver aqui). Edições de autor, chegam-nos pelo correio, em envelopes sóbrios mas personalizados, tamanho de bolso. O grafismo é depurado e de discreto efeito, e podemos encontrar elementos adicionais: provas numeradas, a reprodução de um postal ilustrado. Estes ensaios fotográficos perseguem a comunicação, buscam novos leitores e olhares, há neles um efeito claro de imersão no mundo, mas sem comprometer a busca e o rigor estéticos. São convites a aproximarmo-nos dos lugares e a conhecê-los- contudo, estamos nos antípodas do guia turístico ou de qualquer amena deambulação.
Impõe-se uma distinta personalidade fotográfica nestes livros que reinventam a estética da “street photography” (particularmente os ensaios dedicados a Nova Iorque e a Paris) ou o inquérito de matriz sociológica, em que uma aparente neutralidade do olhar procura revelações e intensidades (em Alphabet City e, de forma mais evidente, em Lothringen).
Percorridos em conjunto, explicam-nos e exemplificam diferentes estratégias dessa arte maior da fotografia que é a da ocupação dos lugares, e que se iniciou quando Louis Daguerre, num dia de 1839, experimentando uma nova tecnologia, decide dirigir a sua atenção para o Boulevard du Temple, em Paris. E lá estavam uma paisagem urbana, pelo menos dois figurantes humanos, uma ordem social, a vida que já corria.

Em New York City (2010), depois da plácida panorâmica inicial, transposto o rio, vamos penetrar na silhueta negra da cidade. As fotografias ocupam todo o espaço das páginas duplas e não vão permitir que o olhar serene. O contraste é muito forte, temos algumas chapas de luz e o gelo das sombras. Estabelece-se uma atmosfera que apetece chamar de bárbara beleza, um tanto subsidiária da estética cinematográfica de uma câmara de mão.


Estamos sempre demasiado próximos, como se nos fosse retirada a hipótese de um tempo de reacção e nos surpreendesse a vertigem de um lugar. O fotógrafo expulsa-nos de todo o espaço de conforto e a composição das imagens privilegiará os planos inclinados, as perspectivas instáveis.
Estas fotografias colocam-nos a questão de gerir o caos, de compreendê-lo ou sobreviver-lhe, envolvidos que estamos por uma multiplicidade de índices sociais e até raciais. Há em tudo uma pulsação simultaneamente pública e íntima e o mapa da cidade parece fazer-se de uma espécie de densa esgrima de olhares. Os “graffiti” surgem como se fossem verdades instantâneas e precárias, surpreendendo o espectador em busca de uma sintaxe e de um sentido para os elementos aleatórios da cidade. É uma estética que se faz de vedações, gradeamentos, linhas divisórias, perímetros de segurança, e em que circulam figuras que nos aparecem frequentemente a três quartos, no celebrado e dinâmico “plano americano”.
O livro sugere-nos um devaneio final: a noite cai, envolve o Chrysler Building; a banda sonora será de um jazz trepidante, com um solo áspero e lírico; e, se na última imagem lemos (enfim) “peace”, é apenas uma palavra de difícil e ilusória interpretação.








Em Paris Est Tout Petit. (2011) encontramos grandes afinidades com o livro dedicado a Nova Iorque, mas o efeito global é substancialmente diferente. De alguma forma, passamos de um ponto de vista exterior para a tentativa de sugerir a instalação num lugar íntimo ou natal. É como se captássemos em duas grandes metrópoles o seu timbre distintivo, um personalizado mas indefinível modo de existir e de se manifestar. (Novo delírio: ouvimos agora “Gymnopédies” de Eric Satie,  uma banda sonora para caminhar com serenidade, languidez e algum sobressalto.)