poesia . fotografia . & etc.

Talvez o mundo não seja pequeno / Nem seja a vida um fato consumado . Chico Buarque de Hollanda, com Gilberto Gil








Segunda-feira, 20 de Maio de 2013



ANIMA
poemas de J.M.T.S.
trabalhos de Ana Abreu|Espaço(I)maculado











Animal que devora o próprio fim
a batata insiste, persiste nela
avança para onde não estará
distende as presas, garras de si mesma
e meninas bordam, dobram motivos
de humidade, quadros de bolor
o que vai vivendo nas naturezas mortas





As imagens de batatas e borboletas fazem parte de conjuntos iconográficos cujo desenvolvimento teve como referente o arquivo do Instituto de Reinserção Social para Raparigas, que durante décadas esteve sediado no espaço do Convento Corpus Christi, em Vila Nova de Gaia.


ANIMA está publicado nas edições LÍNGUA MORTA  aqui






Terça-feira, 14 de Maio de 2013

# Em Agenda #





Está já publicado o nº 18 da revista DiVersos - Poesia e Tradução (Fevereiro de 2013, edições Sempre-Em-Pé). Para além de originais de poesia portuguesa, destacam-se traduções para português de poesia de Albert Ayguesparse (Bélgica, trad. de A. Barros), Hölderlin (Alemanha, trad. de Jorge Vilhena Mesquita) e Phillip Sterling (E.U.A. , trad. de José Carlos Marques). Colaboro neste número com quatro textos do ciclo Música de Anónimo (poemas 2001-2009), ainda inédito em livro:

A janela do atelier de J. Sudek
Os cadernos de esboços de J. W. Turner
As raparigas de Capri em pintura de H. Pousão
G. Mahler na cabana junto ao lago


O projecto DiVersos, na ocasião da publicação deste número, será apresentado na próxima sexta-feira, 17 de Maio, pelas 18h15, no Palacete Viscondes de Balsemão, no Porto, à Praça Carlos Alberto. Lá estarei, com outros participantes, para falar sobre poesia, tradução, ler alguns textos. Se passarem pelo local nesse fim de tarde, será um bom pretexto de encontro.








Domingo, 5 de Maio de 2013


lugar que muda o lugar






Tratado de Arquitectura segundo Nicolau Nasoni


Repouso a sete palmos de terra
cumprindo a ciência das fundações
e o mistério dos números
Por minha estrita disposição, perdi-me
em local secreto de um templo 
que desenhei até ao pormenor

Se me quiserem descobrir
não é certo que insista
o sangue quente italiano
Terão de perder-se na planta
que lhes deixei, mas ofereci
a causas mais divinas
Juntou depois a natureza
ornamentos de humidade
e o trabalho paciente das aranhas

Agora que me chamaste
ficará também aqui
qualquer coisa soterrada
sílabas escuras, mínimas
lascas de osso, e é como
se estivesse à espera 
dos que vêm a caminho

Falaríamos de quanto pude erguer
em fundos tão confusos
para que a paisagem pousasse
como nas gravuras

a minha torre dividindo o espaço
e orientando as aves, por ela 
a inclinação dos remos a repetir 
o rio, olhassem-na distantes
os operários amestrando o fogo 
entre os fumos do poente, soprassem
as nuvens por volutas da minha 
inspiração até ao lugar 
em que a vida aquietasse


De longe os avisos, pressentimento
do tremor da terra, a tempestade
e seus andaimes, mas tudo assim
arrisquemos em esplendor 
e abatimento


JMTS




 Porto. Gravura 1789
Teodoro Maldonado










Segunda-feira, 29 de Abril de 2013

oCorpodasLetras



 


Azulejo ou l' illusion visuelle

filme:Kolja Saksida (direcção e animação)
poema:excerto de Fernando Pessoa/Álvaro de Campos(Tabacaria)
música:Mário Trovador 

visto aqui






Domingo, 21 de Abril de 2013

o lugar que muda o lugar






Memória Descritiva de uma Casa na Trofa


casa é visível e demora

Não esqueças nenhuma porta
o mapa das frinchas pelas paredes
desencontrados sopros, escadarias
aceita a mão incerta que te leva
há uma qualquer suavidade 
reencontrada e sobressaltos
nas coisas espaçadas, tardia glória

Tudo atravesses com os olhos abertos
e fechados, descansa na sala de visitas
camarote sobre nenhum mar
tens pilhas de revistas arrumadas
e um recanto para acolher os guarda-chuvas

Alcança o quarto para os banhos, muito ao norte
procura um segredo nos desenhos de ladrilhos
podes jogar ao sério com o frio nos espelhos
ou fica a ouvir a água que se afoga pelos fundos

Com quem te cruzas, no trânsito inaudível?
Quem nos toca nos ombros
e demasiado nos debruça nas janelas?
De que recanto espiarão agora
os meninos seus carreiros de formigas
colónias de traças adoptadas
voos elegantes, espessuras em fio?

O ar dói com camadas sobrepostas
nas cozinhas que entram pela terra
cerca as aves que ficam penduradas
com asas feitas de raízes, grava
a fogo e carvão as cenas campestres
e em sanguínea os saltos da lebre

Abafa-se nos dormitórios voltados a sul
pelas horas que atraem ondas de mosquitos
espirais entontecidas que levam as mulheres
das salas às varandas, flutuam em camisas
transparentes, nós do corpo que se
deixam confundir com a noite que não pára
e traz estrelas, quedas súbitas ardendo

O sótão não se cansa de esperar
dispõe de coisas móveis e perdidas
caixinhas de conchas e berlindes
e tudo é consumido pela
poalha luminosa e vendavais
enquanto no pátio estalam os lençóis
como velas que levassem o lugar

Não é certo que se saiba da saída 
ou de um fim para a memória


JMTS







 

imagem vista aqui





Domingo, 14 de Abril de 2013

a casa do inverno







 jmts
 a casa do inverno aqui





ÀS ESCURAS

Seria a primitiva luz
das casas a mais antiga
Conhecíamos os caminhos
pelo baque da noite
um sopro tão retirado do mundo

O tempo demove as moradas do tempo
e no mais derradeiro olhar
já não saber como perder-te
essa súbita porta do dia
algo assim, às escuras


JMTS in Música de Anónimo






Sábado, 6 de Abril de 2013

as súbitas permanências



ARRABALDE

Sabes do destino das ruas mais distantes
e aí persistem plenas as ausências
moradas de um abandono iluminado
Seguimos as pisadas que se perdem
o canto rouco das torrentes da poeira
demolidos portões, a ferrugem das passagens
Nos teus olhos outros olhos que se afastam
ao longe noutro arrabalde
e tudo disposto para sempre sem lugar


 
J.M.T.S. in As Súbitas Permanências, Quasi Edições, 2001 (aqui)






 Edward Heim, New York, 1920's








Sexta-feira, 29 de Março de 2013

ver . ver ponto






O projecto fotográfico ver. concretizou-se na publicação de um livro. É uma edição de autor preparada através da Blurb, empresa que disponibiliza, sem custos, ferramentas de edição e publica na modalidade "print on demand". 

O volume pode ser adquirido aqui
Ver também aqui.

 
ver.  59 anotações fotográficas           
ed. autor / Blurb . dezembro 2012
78 pp. | capa mole | papel ProLine texturado     

Uma reflexão fotográfica acerca do acto de ver. 































































































































































ver . ver ponto























JMTS
série ver. aqui





Sexta-feira, 22 de Março de 2013

as súbitas permanências



A MULHER NUA

Há um rumor no silêncio que atordoa
Assim fulgura a palidez da pele
de sombras nuamente sustentadas
Abandonas a túnica inconsútil
no peso repousado que respira
serenas gradações precipitadas
halos breves da mais densa penugem
Como abraçar toda a nudez mais nua
se intensamente tão de si vestida?




A MULHER ESTRÁBICA

Enfrenta-nos como se olhasse o mundo
e com intensa distracção beijasse
a mais tocante distância dos lábios
Dedicamos-lhe toda a vasta ausência
que inspira os seus caminhos transviados
e mantém assim forte o nosso abraço
Com olhos que nos trazem tão de longe
como viver o tempo em que se vive
o infinito de um frontal olhar?


J.M.T.S. in As Súbitas Permanências, Quasi Edições, 2001 (aqui)






 modigliani







Domingo, 17 de Março de 2013

Parábola Óptica
teorias portáteis sobre fotografia





Olhar de novo pela primeira vez


Maíra Soares apresenta assim o projecto Este Seu Olhar

Este seu Olhar é um ensaio feito a partir de fotografias que meu pai fez de minha mãe durante o primeiro ano de casamento. Encontrei essas imagens depois da morte de minha mãe, 35 anos mais tarde, e foi como se estivesse contemplando outra pessoa.  // A proposta deste ensaio é ir ao encontro de minha mãe através do olhar de meu pai. Minha intenção é desvendar seu mundo e sentimentos nesse período da sua vida, enquanto passeio pela memória do meu pai.

Temos aqui uma espécie de tributo a quem desapareceu, mas muito longe do ritual fúnebre das imagens. Dificilmente se conceberá um olhar mais sereno e vivo acerca da passagem da vida. Quando Maíra ocupa o lugar da mãe nas fotografias, e olha tudo isso com o olhar apaixonado do pai, há um vazio que desaparece, e o passado pode então ressurgir na estranheza e intensidade de cada instante. O tempo não pesa nos olhos com a sua ferrugem, porque Maíra assume a forma mais radical de compaixão: ser com o ser do outro que prolongamos na nossa vida. O virtuosismo discreto do fotógrafo está em dar a ver o olhar num espelho que deixa de ser narcísico, porque apenas propõe uma teia delicada de pontos de vista: olhar sempre de novo pela primeira vez.
O livro tem a beleza simples do que profundamente existe, e é filmado com a paixão das coisas que o tempo apura e depura. (ver aqui)





   


J.M.T.S. 
outras Parábolas Ópticas aqui








Quarta-feira, 6 de Março de 2013

# Em Agenda #





Está já publicado o nº 18 da revista DiVersos - Poesia e Tradução (Fevereiro de 2013, edições Sempre-Em-Pé). Para além de originais de poesia portuguesa, destacam-se traduções para português de poesia de Albert Ayguesparse (Bélgica, trad. de A. Barros), Hölderlin (Alemanha, trad. de Jorge Vilhena Mesquita) e Phillip Sterling (E.U.A. , trad. de José Carlos Marques). Colaboro neste número com quatro poemas do ciclo Música de Anónimo, ainda inédito em livro:

A janela do atelier de J. Sudek
Os cadernos de esboços de J. W. Turner
As raparigas de Capri em pintura de H. Pousão
G. Mahler na cabana junto ao lago











Sábado, 2 de Março de 2013

O aprendiz de FEITICEIRO
teorias portáteis sobre poesia



Como definir a poesia, senhor Breton?

A poesia é um assunto que vem no vento quando o vento bate no jardim. Eis o início de uma definição. Claro que o vento não é uma estrutura inteira que possa bater completamente num jardim. E nem um jardim é essa unidade que o vocábulo jardim aparenta. Existem as flores e a falta de flores; as raízes enquanto parte invisível da memória do jardim e as folhas caídas no chão como parte visível da memória do jardim. Passado e presente temos juntos e momentâneos num jardim, o futuro não. E é o vento (que visto por quem vê seriamente as coisas), é o vento que afastado ainda do jardim, aproximando-se, traz com ele o futuro. E é quando a profecia, em brisa, bate em cheio no presente e no passado, é aí, momento nítido, que surge a poesia. Que bonito!
Claro que poderás dizer que, se o vento leve sobre as folhas caídas e sobre as folhas levantadas é poesia, então será discurso impublicável.
E sim, é certo, tens razão: é impublicável tal discurso; vocábulos finíssimos. Dirás ainda que o vento breve no ramo forte é verso erudito de mais, que poucos- raros- o entendem. Sim, tal é também verdade: poucos raros o entendem. Mas sabes que os raros quando atravessam os campos fazem levantar a cabeça às toupeiras. E quando entram no mar atravessam o mar fortemente chegando intactos ao lado oposto. Estes são os raros. Eis o que diz o senhor Breton.
O homem comum utiliza a salvação para se salvar. Os raros utilizam o veneno para se salvarem.


Gonçalo M. Tavares 
"Seis perguntas ao senhor Breton- sobre o prazer da poesia" in O Prazer da Leitura, Teorema/Fnac, 2010





Jillian Tamaki







outras teorias portáteis sobre poesia aqui
imagem vista aqui

Domingo, 24 de Fevereiro de 2013

UmA EspéciE de MúsicA
no conservatório regional de v. n. gaia





















JMTS 
série  Uma Espécie de Música  aqui




É um projecto fotográfico que interpreta o espaço arquitectónico do Conservatório Regional de Vila Nova de Gaia e a natureza que o envolve como uma espécie de música, para usar a expressão de Óscar Lopes, a propósito da poesia de Eugénio de Andrade. Como se a música também no mundo respirasse.







 

Domingo, 3 de Fevereiro de 2013

o lugar que muda o lugar






Setas, Tempestades, Realejos



As setas apontam o sítio, é o real
vêmo-lo das escadas rolantes e dos carris
deixamo-nos empurrar, como se fosse docemente

Aperta-se o cerco dos martelos contemporâneos
mas insiste, inaudível, um baixo contínuo
vem desses homens que empurram o ar endurecido
e arrastam de longe as caixas de música

Na hora em que dispara o sistema de luzes
e a tempestade atira galhos ao vento
eles aparecem das barreiras da cidade 
saem dos esgotos, do mais escuro dos jardins
assombram montras e espelhos
ocupam a selva das traseiras

Distraídos, trespassam tempos como pátios
exibem a enorme transparência
dão voltas e mais voltas
vão girando a manivela do mundo

Uma coisa mecânica, aos soluços
mistura pó dourado e ferrugem
enquanto voam, no muito ar, os guarda-chuvas


 JMTS







 imagem vista aqui





Domingo, 20 de Janeiro de 2013

o lugar que muda o lugar






J. W. Goethe Contempla o Jogo das Nuvens


Será eterna música das esferas
mas é incerto em demasia o estado do tempo
e excessiva a concentração
de corpos atmosféricos

Stratus, cumulus, cirrus, nimbus
tivéssemos nomes iguais a nuvens
e alcançássemos matérias rarefeitas
acumulações do lugar, o que está sempre 
por detrás, e antes, muito longe

Poetas, meteorologistas, hóspedes das termas
procurando ansiosamente o barómetro
ficamos a contemplar o mais alto vapor
em objectos difusos e na palidez dos céus 
as figuras onde tudo repousasse

Encharca-nos obscura vocação
perder uma nuvem após a outra
perseguir entre atalhos de luz 
a lógica selvagem da tempestade

Já falta pouco, o éter sublime
será apenas o manto branco
que oculta telhados, esterco, vedações
e não consegue deter o louco cata-vento

É ele quem afinal se explica  
com palavras sufocadas
deixa pedaços do mundo
a estremecer a janela

 


JMTS 












Domingo, 6 de Janeiro de 2013

o lugar que muda o lugar






Coisas Tocadas no Escuro


Haverá uma distância precisa para o que existe
tangível desfocagem de quanto nos pertence
a detida contemplação em redor
e coisas tocadas no escuro

Perguntamos se tudo estará no sítio certo
o copo da água, as amadas transparências
um livro à cabeceira desfolhando 
o silêncio, devagar

Podemos abrir, podemos não abrir as cortinas
lá fora uma noite inteira
aguaceiros que apuram aguaceiros
ou o calor trabalhado pelos ralos

Esse modo como falha a luz 
e o breu se instala 
procura um segredo de quarto em quarto
adivinharemos primeiro a forma
só depois o que reaparece
em riscos, clarões de fósforo

Chegam de longe invisíveis aviões
aproximam-se das cidades prometidas
sabem da terra pelos focos interiores
e dos limites incendiados
por veios distendidos de um vazio

Irrompem assim as crianças nas casas
onde nasceram, lançam-se para o grande vão
da escadaria, de patamar em patamar
correm no negrume, pressentem as paredes
abraçam a escuridão

Assim o dia em que sonhamos 
exactamente vivo, um pai 
que nos dizem que morreu 


JMTS 









Segunda-feira, 24 de Dezembro de 2012


passagens









para o dia 25.12.2012
 
visto aqui
(um sítio por onde gosto, muitas vezes, de fazer um atalho)




Quinta-feira, 6 de Dezembro de 2012

o lugar que muda o lugar






Miradouros


As mães levam os filhos pela mão
mostram as ruas, os pequenos comércios
apontam o mar, planícies
outros campos muito rasos

Alcançam depois as paragens mais altas
conduzem-nos para o extremo dos caminhos
abordam os abismos, a placidez
Guardam os seus olhos como um segredo
usam de serena violência
que volte tudo um dia apenas como sonhos

Acende-se o rastilho de miradouros na cidade
chapas de sol longamente trocadas 
um código de clarões que aproxima
as coisas que não vemos
Quando a luz em si decai
aparece a grande nitidez
vem chamar vultos para a noite

As mães trespassam o labirinto
dessa teia, por nós cegos
pontas soltas que enleiam viandantes
afastam-nos para sempre
Há dias em que perguntam

de que mais vasto miradouro nos saberá alguém

onde o lugar que seja o mesmo olhar?



 JMTS
















Quarta-feira, 14 de Novembro de 2012

depois os olhos, quando o encontram, encontram só a cidade



 Nesta história sabe que o pai vem de longe, calcorreou ruas, vielas, praças em diagonal, jardins, escadinhas, é um ponto na muralha, nos planos desdobrados e encaixados, até desembocar neste caminho junto ao rio. Encontram-se, estranham-se no modo como os olhos são vivos e únicos, se cruzam e se perdem. Todos dizem «o teu andar é tão igual ao do teu pai» e ele força o que julga serem os pontos de semelhança, um ligeiro curvar, uma coisa assim, mas, no esforço, fica menos parecido e o resultado é grotesco. O pai vai partir um dia, atravessará a grande ponte, segue-o com a vista, aos poucos tornar-se-á difícil distingui-lo, perde-o por momentos, torna a vê-lo numa curva, depois os olhos, quando o encontram, encontram só a cidade. Atravessa também a ponte, sabe que tem de inventar os seus passos, no modo mais antigo e natural, tropeça sempre um pouco. No caminho encontra uma mulher que lhe lê os olhos e o abraça, brincam nas pedrinhas da calçada os meninos que um dia poderão também contar esta história.


J.M.T.S. in A Minha Palavra Favorita , Centro Atlântico, 2007











Quinta-feira, 8 de Novembro de 2012

o lugar que muda o lugar






Solar de Mateus, Cravo em Primitiva Adega


Esta casa, todo o jardim, imediações
o lugar onde à sombra se lê e escreve
oferecem-nos hipóteses de trabalho

Falemos, mero exemplo, da clássica, barroca
derrocada, do entulho de dourados e granito
destroços que um dia se assinalem
em alamedas de divina proporção

Ou do vibrante cravo, da primitiva adega
onde ele ficou como por acaso
desse modo de dar tempo ao tempo
que não se acumule, respire
o que de longe se apura, repassa
desapareça longamente

Nenúfares desdobrando-se
em nenúfares com a água
constelação dos traços
de quem se perde no caminho
diversas matérias, remotas hipóteses

A tarde cai, apaga leituras e sinais 
só a noite irá, enfim, sobressaltar
vastas estâncias do esquecimento


JMTS