poesia . fotografia . & etc.


Talvez o mundo não seja pequeno / Nem seja a vida um fato consumado . Chico Buarque de Hollanda, com Gilberto Gil








terça-feira, 4 de abril de 2017

O aprendiz de FEITICEIRO
teorias portáteis sobre poesia

 outras teorias portáteis sobre poesia aqui


VESÚVIO

Viagem em Itália de Rossellini (1954). Katherine (Ingrid Bergman) e Alexander (George Sanders) são o casal Joyce, ingleses de visita a Itália (uma vez mais, como em Um Quarto com Vista de Forster). Dão-nos uma conversa edificante sobre poesia ou talvez, lá no fundo,  sobre outras matérias: a natureza do gelo, o ciúme, a saudade, a paixão, ou todas essas coisas (e as outras) ao mesmo tempo, como é próprio, aliás, da poesia. Ela existe porque os diálogos avançam precisamente assim, entre surdos que insistem em ouvir-se.










Mas há um terceiro ponto de vista, o do promotor que lhes mostrou a casa: 

«Quero que vejam a varanda. Aquele é o Vesúvio. Desde a erupção de 1944 que está inactivo. Mas a temperatura começa a subir. Atrás daquela primeira montanha fica Pompeia.»

Não o sabe, mas é ele quem melhor nos apresenta a poesia: vistas para a quietude, iminentes erupções. Fóssil e fogo.








sexta-feira, 3 de março de 2017

das palavras dos outros






daniil kharms / in Três Horas Esquerdas, Flop, 2017
 tradução de Júlio Henriques


CADERNO AZUL Nº. 10


     Era uma vez um homem ruivo que não tinha olhos nem orelhas.
     Também não tinha cabelo, chamavam-lhe ruivo por mera convenção.
     Não falava porque não tinha boca. Também não tinha nariz.
    Nem sequer tinha braços ou pernas. Não tinha estômago, não tinha costas, não tinha coluna, e também não tinha vísceras. Não tinha mesmo nada! Por isso não podemos saber de quem estamos a falar.
     Diria mesmo que é melhor não acrescentarmos mais nada a seu respeito. 






Susan Howe, That This



 

   imagem vista aqui
flop aqui 

domingo, 5 de fevereiro de 2017

Parábola Óptica
teorias portáteis sobre fotografia





O mundo suspenso numa ponte


Roland Barthes, em A Câmara Clara (Edições 70, 1981):

É pelo studium que me interesso por muitas fotografias, quer as receba como testemunhos políticos quer as aprecie como breves quadros históricos, porque é culturalmente (...) que eu participo nas figuras, nas expressões, nos gestos, nos cenários, nas acções.  (p.46)

(...) o punctum: quer esteja cercado ou não, é um suplemento; é aquilo que eu acrescento à foto e que, no entanto, já lá está. (p.82)
O punctum é (...) uma espécie de fora-do-campo subtil, como se a imagem lançasse o desejo para além daquilo que dá a ver (...). (pp. 85-86)

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Uma coisa é reconhecer, mais uma vez, a pertinência e imaginação teórica de um livro sobre fotografia, como é o caso deste, o seu jogo sedutor entre saber e desejo. Outra é perceber que é exactamente assim como ele diz, que se nos ajusta como perfeita luva. Por exemplo, numa fotografia de Bruno Barbey sinto essa ferida a que Barthes chama punctum, algo que encandeia, um campo cego: Porto, 1964.




Ponte Luiz I, Porto, 1964 . Bruno Barbey


O que nos faz o encanto de certas fotografias? O que nos prende nelas, não nos deixa desviar os olhos, parar de olhar? O que depois  nos leva a fechá-los intensamente, prolongando-as muito, sonhando o resto?
Há, de facto, questões da estética, das regras fotográficas e da sua transgressão, incidências da Sociologia e da História. Sim, tempos difíceis, o "magala" e a "sopeira", uma tipologia a traço muito grosso que é o contrário do que sinto por esta imagem e os seres nela representados; há um país pobre e cinzento sem opção, alguma coisa de “novo cinema português"; há até uma extraordinária simbólica visual, a que aproxima o homem e a mulher nos seus cinzentos afins, unidos e perdidos na poeira etérea do mundo em volta, elevação e risco, levitação por sortilégio do amor, a mão que insiste em se prender às grades. Ainda assim, tratando-se de fotografia, pode haver outras intensidades. Punctum. Eu andava por ali, criança, naquelas ruas lá em baixo, o mundo estava suspenso numa ponte, tão leve, tão pesado, algo estava a começar naquele dia, e só sabemos que já não existe e hoje o reencontramos. Esse mundo suspenso numa ponte.

jmts 



imagem vista aqui
outras parábolas ópticas aqui


sexta-feira, 13 de janeiro de 2017

sublinhados & notas



depoimento no dossier Eros e Literatura (revista digital Caliban: aqui)
- organização de Maria da Conceição Caleiro

eleger um autor e um livro 
ou uma passagem de um autor 
de língua portuguesa sentidos
como particularmente perturbantes







EROS e LITERATURA

Escolho o célebre conto “Missa do Galo” de Machado de Assis. Trata-se, na aparência, de uma simples conversa entre uma personagem feminina, Conceição, uma “balzaquiana”, e o narrador, um jovem de dezassete anos. Abordam-se temas anódinos e até com um pretexto da área do sagrado (a referida missa), mas é, na verdade, um texto onde perpassa uma insinuante tensão erótica. Nele aprendemos que o fundamental do erotismo talvez seja, afinal, conversa, minuciosos preliminares do impossível: o entredito, o interdito, o inaudito, o subentendido, numa coreografia de palavras e gestos marcada por aproximações e afastamentos, alguns avanços, muitos recuos. Apuradas as contas, o exercício de sedução tem como alvo o leitor, sendo a literatura o seu principal agente- só porque ela assim tão profundamente tem a ver com os humanos e a dança com que eles se repelem e logo atraem.

Também pensei no Amor de Perdição de Camilo, na relação Simão / Mariana, por contraste com o par Simão / Teresa. É o conhecido “triângulo amoroso”, mas a figura de Mariana impõe-se por si mesma. O romance vive de uma espécie de tensão entre o corpo da paixão e, com Mariana, a paixão como corpo. A perdição é também a desse encontro/ desencontro, Simão e Mariana enfim unidos na turbulência fatal das águas, tudo finalmente à deriva. Retenho ainda um diálogo entre Mariana e Simão, na sequência final do capítulo VIII, feito simultaneamente de inocência e ousadia, pudor e oferecimento.

Estive quase a escolher Os Maias de Eça de Queiroz. Poderíamos falar da perturbação erótica que perpassa no romance, reflectindo a partir de duas descrições paradigmáticas- do incesto inconsciente (capítulo XIV) e do incesto consciente (capítulo XVII), como se se tratasse de duas faces do erotismo (espiritualidade vs. carnalidade).
    
Lembrei-me de Aparição de Vergílio Ferreira e da relação Alberto / Sofia. Há nela uma dimensão erótica que não encontra lugar na tentativa, por parte do protagonista, de compreensão do “eu” e do “mundo”, na sua busca de um difícil apaziguamento. O erotismo é aí um sítio de absoluto desespero e desamparo.

Devo ainda confessar que pensei no Delfim de Cardoso Pires e na sua Maria das Mercês, na Judite de Nome de Guerra de Almada e em algumas passagens de Confissões de Narciso do brasileiro Autran Dourado.

jmts 

 

 Masao Yamamoto 
visto aqui 



 



quinta-feira, 8 de dezembro de 2016

das palavras dos outros





ferreira gullar / in Em alguma parte alguma, Ulisseia, 2010


REFLEXÃO SOBRE O OSSO DA MINHA PERNA

A parte mais durável de mim
são os ossos
e a mais dura também

como, por exemplo, este osso
da perna
que apalpo
sob a macia cobertura

ativa
de carne e pele
que o veste e inteiro
me reveste
dos pés à cabeça
esta vestimenta
fugaz e viva

sim, este osso
a mais dura parte de mim
dura mais do que tudo o que ouço
e penso
mais do que tudo o que invento
e minto
este osso
dito perônio

é, sim,
a parte mais mineral
e obscura
de mim
já que à pele
e à carne
irrigam-nas o sonho e a loucura

têm, creio eu,
algo de transparente
e dócil
tendem a solver-se
a esvanecer-se
para deixar no pó da terra

o osso
o fóssil

futura
peça de museu

o osso
este osso
(a parte de mim
mais dura
e a que mais dura)
é a que menos sou eu?





daniel moreira
"entre o território" (2014)



   imagem vista aqui




 

sábado, 29 de outubro de 2016

das palavras dos outros




judith wright / in Animal Animal, Assírio & Alvim, 2005
 tradução de José Alberto Oliveira



CATATUAS NEGRAS

Cada género específico de tempo ou de luz
tem as suas criaturas. Elas esperam algures,
com se habitassem apenas o calor ou o frio,
o crepúsculo ou a madrugada e não conhecessem outro estado.
Depois, no tempo certo chegam, tímidas ou determinadas.

Assim, quando os grandes ventos áridos, ásperos como lixa,
se acalmaram, e o tempo mudou e vieram as nuvens
e outras aves se calaram em oração ou medo,
estas conheceram a sua hora. Antes que o primeiro clarão longínquo
se acendesse, ou o primeiro trovão pronunciasse o nome,
chegaram em voo cerrado, até que eu pude ouvir
as catatuas negras selvagens, sacudidas no cimo
das suas altas árvores, gritando o desassossego do mundo.





Kunihiro Amano
(xilogravura)




imagem vista aqui




 


sábado, 15 de outubro de 2016

 # Em Agenda #


No número 6 de SUROESTE (revista de literaturas ibéricas - Badajoz, 2016), um texto de Miguel Filipe Mochila sobre O Segundo Olhar de Inês Lourenço (Companhia das Ilhas, 2015)







 (para ler, clicar nas imagens)