poesia . fotografia . & etc.

Talvez o mundo não seja pequeno / Nem seja a vida um fato consumado . Chico Buarque de Hollanda, com Gilberto Gil








sexta-feira, 10 de Outubro de 2014

 Piscinas

 desenho de Ana Abreu 




O temporal agitará as piscinas
chegarão pequenos corvos, coloridos
pássaros nas escadas úteis, praticáveis

É da baleia branca o ronco das máquinas
estalam depois as barreiras, uma a uma
ceder de paredes, as sucessivas ondas

A água inteira será só a do mar
levando o mar, bandeiras, mínimos sinais


jmts



 ana abreu





 

sábado, 20 de Setembro de 2014

processos sumários

 


NIAGARA
[Bert Stern, The Last Sitting, Marilyn]

Recuso esta imagem, faz lembrar
o quarto sossegado sobre a catarata
e uns olhos presos ao abismo luminoso

Seria isso um filme, os pássaros 
despertavam muito cedo, uma cena 
perfeita abandonada na versão final
Repetiam-se os sonhos, havia impermeáveis
de amarelo vivo entre as cordas de água
e sobravam sapatos alinhados nos cacifos
Só para que o corpo caísse lento
e elegante, de pedra em pedra
até ao derradeiro esparrinhar
Estava depois escrito o nome "fim"

Recuso-a com um dedo de sangue
se tudo é apenas a nudez 
que aparece mais despida, pronta 
para o tacto e inocentes pisaduras
Sei que acham bela a gravidade
dos seios que começam a pender
o aproximar de duas pernas
unidas no ponto onde acaba o retrato

Adereços que daqui a pouco
digamos, seis semanas
se vão desvanecer
deixando alguma espuma
 
jmts




Bert Stern







quinta-feira, 11 de Setembro de 2014

das palavras dos outros





rosa maria martelo / in Matéria, Averno, 2014


CORTES


Sobre a mesa iluminada pela luz da tarde, uma jarra de flores expõe a beleza cortada, agonizante, assassinada pelo amor da beleza, que a trouxe para dentro de casa, para morrer. Muito juntas, as flores sobrevivem ainda, e encenam no pouco tempo que resta o mundo de onde vieram. Parecem vivas, quase deixam esquecer que são o grande ramo da morte a emergir de um frasco transparente. A contemplação da beleza: acredita na suspensão absoluta do instante, mesmo se tudo em volta lhe diz que não é bem disso que se trata. Repara, alguns ramos já começam a secar.






Emily Dickinson, Herbarium 
(circa 1839-1846)




  imagem vista aqui



segunda-feira, 14 de Julho de 2014

Parábola Óptica
teorias portáteis sobre fotografia





Pascal Anders ou Da Ocupação dos Lugares


Pascal Anders 
New York City, 2010
Alphabet City, 2011
Paris Est Tout Petit., 2011
Lothringen, 2013


São quatro dos livros do fotógrafo (ver aqui). Edições de autor, chegam-nos pelo correio, em envelopes sóbrios mas personalizados, tamanho de bolso. O grafismo é depurado e de discreto efeito, e podemos encontrar elementos adicionais: provas numeradas, a reprodução de um postal ilustrado. Estes ensaios fotográficos perseguem a comunicação, buscam novos leitores e olhares, há neles um efeito claro de imersão no mundo, mas sem comprometer a busca e o rigor estéticos. São convites a aproximarmo-nos dos lugares e a conhecê-los- contudo, estamos nos antípodas do guia turístico ou de qualquer amena deambulação.
Impõe-se uma distinta personalidade fotográfica nestes livros que reinventam a estética da “street photography” (particularmente os ensaios dedicados a Nova Iorque e a Paris) ou o inquérito de matriz sociológica, em que uma aparente neutralidade do olhar procura revelações e intensidades (em Alphabet City e, de forma mais evidente, em Lothringen).
Percorridos em conjunto, explicam-nos e exemplificam diferentes estratégias dessa arte maior da fotografia que é a da ocupação dos lugares, e que se iniciou quando Louis Daguerre, num dia de 1839, experimentando uma nova tecnologia, decide dirigir a sua atenção para o Boulevard du Temple, em Paris. E lá estavam uma paisagem urbana, pelo menos dois figurantes humanos, uma ordem social, a vida que já corria.

Em New York City (2010), depois da plácida panorâmica inicial, transposto o rio, vamos penetrar na silhueta negra da cidade. As fotografias ocupam todo o espaço das páginas duplas e não vão permitir que o olhar serene. O contraste é muito forte, temos algumas chapas de luz e o gelo das sombras. Estabelece-se uma atmosfera que apetece chamar de bárbara beleza, um tanto subsidiária da estética cinematográfica de uma câmara de mão.


Estamos sempre demasiado próximos, como se nos fosse retirada a hipótese de um tempo de reacção e nos surpreendesse a vertigem de um lugar. O fotógrafo expulsa-nos de todo o espaço de conforto e a composição das imagens privilegiará os planos inclinados, as perspectivas instáveis.
Estas fotografias colocam-nos a questão de gerir o caos, de compreendê-lo ou sobreviver-lhe, envolvidos que estamos por uma multiplicidade de índices sociais e até raciais. Há em tudo uma pulsação simultaneamente pública e íntima e o mapa da cidade parece fazer-se de uma espécie de densa esgrima de olhares. Os “graffiti” surgem como se fossem verdades instantâneas e precárias, surpreendendo o espectador em busca de uma sintaxe e de um sentido para os elementos aleatórios da cidade. É uma estética que se faz de vedações, gradeamentos, linhas divisórias, perímetros de segurança, e em que circulam figuras que nos aparecem frequentemente a três quartos, no celebrado e dinâmico “plano americano”.
O livro sugere-nos um devaneio final: a noite cai, envolve o Chrysler Building; a banda sonora será de um jazz trepidante, com um solo áspero e lírico; e, se na última imagem lemos (enfim) “peace”, é apenas uma palavra de difícil e ilusória interpretação.








Em Paris Est Tout Petit. (2011) encontramos grandes afinidades com o livro dedicado a Nova Iorque, mas o efeito global é substancialmente diferente. De alguma forma, passamos de um ponto de vista exterior para a tentativa de sugerir a instalação num lugar íntimo ou natal. É como se captássemos em duas grandes metrópoles o seu timbre distintivo, um personalizado mas indefinível modo de existir e de se manifestar. (Novo delírio: ouvimos agora “Gymnopédies” de Eric Satie,  uma banda sonora para caminhar com serenidade, languidez e algum sobressalto.) 




quinta-feira, 26 de Junho de 2014

  # Em Agenda #













Amadeu Baptista | Andreia C. Faria | Catarina Santiago Costa | César Rina | Daniel Francoy | Dirceu Villa | Duarte D. Braga | Emanuel Amorim | Fernando Guerreiro | Isabel Milhanas Machado | João Miguel Henriques | João Moita | José Manuel Teixeira da Silva | Luís Ene | Manuel A. Domingos | Miguel Cardoso | Nuno Brito | Patrícia Lino | Paulo Kellerman | Paulo Rodrigues Ferreira | Raquel Nobre Guerra | Rui Almeida | Samuel Filipe | Tatiana Faia | Victor Gonçalves | Victor Heringer | György Petri / João Miguel Henriques et al (trad.) | Nick Laird / Hugo Pinto Santos (trad.) | Salvatore Quasimodo / João Barcelos Coles (trad.) | Cassandra Jordão
Capa: João Alves Ferreira

Enfermaria 6, Lisboa, Junho de 2014, 124 pp.

 Uma versão impressa deste livro pode ser comprada na Fyodor Books ou 
enviando encomenda para enfermariaseis@gmail.com.





terça-feira, 17 de Junho de 2014

processos sumários

 


DAS OCORRÊNCIAS

Nunca te ocorre
protestar contra o tempo
nuvens, bater de janelas
o banho do sol

Apenas registar as ocorrências
se alheias, e íntimas, são as razões

Chega a ventania por dentro
das paredes, a insuspeita
transparência da névoa
chuva de um lado e do outro 
lado dos vidros

A luz existe e ilumina-se
essa única disposição
de cercar as aves

Podes também partir
que algo ainda ocorrerá 
na desdobrada cidade
dos estendais vazios
 


jmts




Emma McNally
visto aqui 







quinta-feira, 22 de Maio de 2014

Alguns sacos de água 
com seres que vieram da prai
                
                                                             desenhos de Ana Abreu




3.

Do mar a transparência
que a água em si retém
recomeçada e turva

O que partiu revela
outras densidades
(memórias e antenas)
apura íntimas correntes
como se em tudo regressasse

Ou fica por colecções
de etiquetas e figuras
esperando matérias carcomidas
(da maresia os ossos pequeninos)
e haverá quem diga que

ninguém nos ensina
e está ali o mar


jmts






 ana abreu





quinta-feira, 15 de Maio de 2014

o lugar que muda o lugar



Em Papéis | publicações, críticas, na margem direita deste blogue (ou aqui), acrescentou-se aos textos já arquivados uma nova leitura sobre  O Lugar que Muda o Lugar, da autoria de Fernando Guimarães. A referência está incluída na sua habitual Crónica de Poesia, que publica no JL (Jornal de Letras, Artes e Ideias), num artigo cujo título é "O lugar e a terra".







terça-feira, 6 de Maio de 2014

Alguns sacos de água 
com seres que vieram da prai
                
                                                             desenhos de Ana Abreu




2.

O distraído fervor das etiquetas
destino sumário das coisas
suspensas e atadas

Nem sabemos se as hastes vivas
agitam o desespero
(flores da água) ou sequer
suspeitam de quanto jaz
na rotação do mundo

Calaremos as ondas que batem
(assunto arrumado), são agora 
trabalhos de inspiração e asfixia
deixar cegos os nós, as cataratas
como seixos que encham os olhos

Fosse esta memória
do mar a transparência


jmts






 

 ana abreu










domingo, 27 de Abril de 2014

processos sumários

 


PROCESSOS SUMÁRIOS

São processos sumários
que nos levam aos quartos

Há uma espécie de pendor oblíquo
das ruas, sequências de aguaceiros
grandes calmas, o que nos cerca
quando o dia cai inteiro

Esqueceremos o nome mais antigo
apagamo-lo dentro do lugar, regressa
com as luzes, alguém assim o traz
falando de outra coisa

Tudo existe em flagrante
estamos à janela e vemo-nos
chegar, súbitas travagens
ambulâncias, apitos que chamam
do mar muito em criança

Escolheremos o sítio para a mesa
os breves desenhos entre cadeiras
questão de começar os inventários
saber do que insiste nas paredes
se música dos céus, rumor dos
canos, apenas o modo como
o mundo se avaria

Em todo o caso, cuidaremos desse leito
da dobra fria dos lençóis, difícil
a posição das mãos, a travessia
para o demasiado sono


jmts



publicado em Quarto de Hóspedes
volume colectivo, Língua Morta, 2013 (aqui)





Emma McNally
visto aqui







domingo, 13 de Abril de 2014

Parábola Óptica
teorias portáteis sobre fotografia

 



A Fotografia de José Melim ou Uma Questão de Tempo

[introdução a  José Melim, Instantes, Mindaffair, 2014]


© fotografias de José Melim



 O título do texto com que José Melim introduz este excelente conjunto de fotografias salienta o que me parece ser o núcleo essencial do seu trabalho- trata-se, realmente, de uma questão de tempo, até na medida em que está em jogo uma arte de viver, isto é, de passar o nosso tempo no mundo, testemunhando-o e merecendo-o.

Antes de mais, é esta uma prática fotográfica que se apossa do tempo do espectador, contrariando os hábitos dominantes de consumo acelerado e frívolo das imagens. Tal só acontece porque o fotógrafo dá também tempo ao tempo, nessa decisão prolongando os gestos primordiais da História da Fotografia: o caçador de imagens, colado ao mundo, está atento aos avisos em redor e assume a postura dos felinos em expectativa do instante fulminante. Não encontramos aqui os rituais contemporâneos que alienam o real e, com ele, o precioso atrito da relação do homem com o mundo, substituindo-os pelo simulacro da acumulação espectacular das imagens. Neste sentido, o presente livro de fotografias é o resultado de duas operações exercidas sobre o tempo.

Pelo seu carácter antológico, tem em si inscrito o apuro que resulta de uma selecção (que se suspeita dramática) de entre um extenso corpus fotográfico produzido ao longo de décadas, e que atravessa, inclusivamente, a fronteira entre o analógico e o digital. Perante o modo de existir destas imagens, temos a intuição de que o fotógrafo preferiria às suas decisões o escrutínio do tempo, que é, como diz Marguerite Yourcenar, “esse grande escultor”. ¹

Mas a imersão na temporalidade é, num outro plano, o diálogo deste livro com a História da Fotografia. Instantes ilustra, com virtuosismo e sistematicidade, a própria “gramática” do processo fotográfico que é, em si mesma, um produto histórico, e isto porque estamos perante um observador que, se merece os acasos da sorte, é sobretudo consciente do que está a fazer, como, aliás, testemunha o seu texto introdutório. Neste assumir da História da Fotografia, e porque, como nos diz logo em epígrafe o autor, não há um olhar que possa ser inocente, denuncia-se um essencial classicismo estético, baseado em valores como o equilíbrio e a harmonia universais ou, noutra perspectiva, perseguindo a captação de uma essência, na qual o mundo se viesse aquietar com as suas formidáveis energias. Prescinde-se, sem remorsos, de muitas das pulsões da fotografia contemporânea: a neutralidade analítica, o inquérito social ou humanista, a aridez conceptual, a deriva de um registo confessional.



Arriscaria dizer que estas imagens se situam, maioritariamente, e com extremo rigor e sensibilidade, no cruzamento de duas estéticas fotográficas consagradas, que poderíamos, por comodidade, revelar a partir das lições paradigmáticas de Ansel Adams e Henri Cartier-Bresson.

quarta-feira, 2 de Abril de 2014

processos sumários

 

DISCRETA NATAÇÃO

Tudo sempre coincidiu
para lá de toda a coincidência

Dizias, eis as lágrimas
e havia chuva ou uma faca de
luz dentro dos olhos

Ficavas calado no jardim
para que usassem pássaros
o teu silêncio
Afinavam pela rouquidão terrestre
quando as folhas imitavam o ar
desenhando o vento inteiro

Entretanto, elaboravam as nuvens
castelos de que fugiam, esse modo
de apenas desaparecerem no mar

A mesma água oferecia o brilho dos peixes
e a discreta natação dos afogados


jmts



publicado em Cintilações da Sombra 2
antologia poética, Labirinto, 2014



Emma McNally
visto aqui