poesia . fotografia . & etc.


Talvez o mundo não seja pequeno / Nem seja a vida um fato consumado . Chico Buarque de Hollanda, com Gilberto Gil








segunda-feira, 29 de agosto de 2016

OTERCEIROTEXTO


A tradução de um poema de Sinéad Morrissey de novo na Enfermaria 6 "An Anatomy of Smell" pertence a Between Here and There, de 2002. É um livro em duas partes, uma espécie de díptico difícil: a primeira focada na Irlanda natal a que a autora regressa, depois de viver em paragens distantes, e a segunda significativamente intitulada "Japan". Trata-se de um poema que interroga as origens e a sua deriva, numa intensa e aguda sondagem do banal significativo. Como é também característico da autora, interessam-lhe os mecanismos da percepção e o amor, esse velho tema.















 aqui







domingo, 31 de julho de 2016

das palavras dos outros







sam shepard / in Crónicas Americanas, Difel, s.d.
(Tradução de José Vieira de Lima)




Vejo o meu filho mexer-se, enquanto sonha
Enquanto dorme, de lado, numa cama de motel

No quarto ao lado, um casal discute
Ele repete: «Então, Lorraina, não faças isso!»
Ela repete: «Porquê?»

Nadadores mergulham na piscina, lá fora
Nadando na noite
Nem uma só voz

Os braços que batem a água

Enquanto
O miúdo estremece
Dá voltas com a cabeça na almofada
Há um sonho que passa dentro dele
A sua voz
Sem palavras

Os Grandes Montes Tetons assomam, de fora, à nossa janela
Sem neve
Azuis

O Rio Snake serpenteia à volta da nossa cama
Sibila para dentro de si mesmo

O tipo com o cinturão de cartucheira chega à janela e berra
«Mais cuidado com essa linguagem» para o casal que se trava de razões

O casal cala-se
Solta risinhos abafados

O rodeo acaba
Ouvem-se os camiões

O Café Elk Horn enche-se de montadores de touros
A águia voa no encalço de uma truta

Alguém deixa cair uma moeda na máquina do gelo
A máquina cumpre com um baque seco

Os nadadores deixam a piscina
Agora estão a falar
Mas não consigo entender as palavras

Os alces seguem para norte
(Quase que podemos ouvi-los)

O urso pardo segue para onde lhe apetece
(Ontem comeu três caminhantes)

O meu miúdo anda aos saltos, enquanto sonha

Uma espingarda dispara

O casal grita

O miúdo acorda


5/8/80
Jackson, Wyoming






Edward Hopper
Gas, 1940







sábado, 23 de julho de 2016

sublinhados & notas



Dramas de Companhia  | André Domingues | col. azulcobalto 037 | Companhia das Ilhas | Lajes do Pico, 2016



O JOGO DO SÉRIO


As ficções deste livro instalam uma verdadeira armadilha a apresentadores incautos, porque, pela sua complexidade e efeito de surpresa, estabelecem um jogo, não isento de perigos, com o leitor. Não é que não estivéssemos avisados pela epígrafe de Machado de Assis: “O melhor drama está no espectador e não no palco”. Uma após outra, as narrativas avançam por entre fronteiras do sentir e do pensar - para nos cingirmos a categorias convencionais. Expulsos de territórios de conforto literário e existencial, somos, então, conduzidos a zonas-limite, terras de ninguém, lugares que não são fáceis de habitar. Provocação e desafio, exactamente como no Jogo do Sério.
O Jogo do Sério - conhecem? Alguém olha alguém nos olhos, numa quase perfeita simetria, como num espelho vivo e inquieto. E nesse jogo a seriedade desemboca no riso e o riso (a hipótese do riso, o seu esforçado adiamento) é levado a sério, como se fosse um caso de vida ou de morte. Mas é só um jogo, e depois tudo sempre recomeça. Lembrei-me deste exercício a propósito das ficções de André Domingues, como se fosse a ponta de um fio, estratagema para começar a deslindar o objecto inquietante. Olhos nos olhos com o leitor, um jogo sério, com a velha virtude da “gravitas” e, profundamente embrenhado nisso, um imenso sentido lúdico. Fica a dúvida: jogamos a sério (porque jogar é um caso sério, como acontece com as crianças) ou é a seriedade apenas uma brincadeira, algo afinal descartável e necessariamente relativo? Adiar o nosso riso, a descompostura que desmancha a pose de estátua - é o que aqui se faz com virtuosismo e, entretanto, somos alvo, nesse jogo, de um percurso de reflexão e sensibilidade que nos transforma. “Dramas de Companhia”- já no título o sério e o lúdico, a brincadeira fonética que aproxima angústia existencial e sentido de irrisão. Poderíamos recordar um  jogo semelhante que dá o título a uma obra de um autor que (suponho) terá algo a ver com a família literária destes textos: Rayuela de Julio Cortázar. “Rayuela” - o nosso “jogo da macaca”, que é também, simbolicamente, como aqui, um jogo do mundo entre a terra e o céu, em percursos de habilidade e risco. 



Uma outra forma de me aproximar do livro passa por um poema do espanhol Blas de Otero (1916-1979), que me lembra uma das razões por que gosto destes textos: “Tu seno izquierdo”, incluído em Hojas de Madrid con La Galerna:

TU SENO IZQUIERDO

Cuántos problemas tiene el mundo, el hombre, el espíritu santo.
Si no hubiera problemas habría que inventarlos a fin de  resolverlos.                                                       
Es el problema por el problema -algo así como el arte por el arte.
Imagínese un mundo liso, alisado, superficial, sin problemas.
Tan aburrido como el cielo.
Como una mujer junto a una estufa.
Yo amo los problemas como a tu seno izquierdo.
Sólo para acariciarlo.
 

Impõe-se o valor do problema pelo problema, superando um mundo liso, aborrecido e normalizado, na busca do mais essencial (o seio), mas também do único, do irredutível - precisamente o seio esquerdo, não o outro, por capricho e apego ao singular, uma precisão que é também muito frequente no livro que nos ocupa. O esquerdo, que é, pela sua simbologia, o controverso, o provocatório, o desalinhado, o que se afasta do consensual caminho do bem.
Este livro cumpre uma função extraordinária da literatura (no preciso sentido do termo) - colocar questões, deslocar o olhar, experimentar diferentes pontos de vista, baralhar linguagens, dar de novo o jogo, mudar os trunfos. Resistir às versões correntes e normalizadas do mundo, à chamada “vida real”, às narrativas dominantes, ao senso mais comum. Isso implica, de algum modo, retomando a epígrafe de Clarice Lispector, uma “verdade inventada”. Trata-se, ao contrário do que se pretende na vida útil (digamos assim), de ligar o “complicador”- nada de “simplex”. Porque a vida é subtil. Como encontramos numa canção de Chico Buarque, em parceria com Gilberto Gil: “Talvez o mundo não seja pequeno / nem seja a vida um fato consumado”. 

terça-feira, 12 de julho de 2016

quarta-feira, 18 de maio de 2016

processos sumários




um novo poema do ciclo na Enfermaria 6

"György e Martá Kurtág Tocam 
uma Transcrição de Bach a Quatro Mãos





Parece que só quatro, as nossas mãos/ mas não é por isso que/ as pomos no fogo




mãos de Sergei Rachmaninoff 
arquivo Life Magazine
imagem vista aqui







oCorpodasLetras


 
Dictionary Illustrations
vídeo:Marie Craven
poema:Sarah Sloat
música:Podington Bear
voz: DM 

                                                                                                                                               visto aqui

Dictionary Illustrations

Searching for a word I set off
browsing the dictionary illustrations,
pages flush with fish

and obscure instruments and myriad
breeds of duck, which, colorless,
end up looking much the same.

These artists don’t dawdle
amongst the obvious; they illuminate
the oriel window; they trace

the lobate foot of the grebe.
The reindeer appears tame and boxy
on paper, gigantic antlers bearing

the weight of reincarnation.
On page 1291, drawings disambiguate
the difference between paly

and paly-bendy, two patterns of heraldry:
think roadblock versus barbershop, TV
off-air image versus LSD.

They don’t do verbs in dictionary pictures,
so for zip here’s an inch-wide depiction
of two men intent on fencing.

In one two-page arrangement,
the seahorse floats peacefully beyond
the reach of the scythe. Pen-and-ink

sketches break the columns up
like little windows opening
from one side of the brain

to the other. Tiptoe through, and pay
attention to the shapes of leaves,
which can be hard to describe.


- Sarah Sloat




quarta-feira, 4 de maio de 2016

 # Em Agenda #




Há na poesia (entre outras dimensões) uma sedutora vocação portátil, um modo de existir que a confunde com o correr dos dias. Nessa linha de ideias, as BULAS do Correio do Porto (ver aqui) são um projecto sugestivo, ao pôr alguns papéis a girar ao vento. Sabe-se lá a quem e como irão parar. Se há uma sugestão irónica de livrinho de auto-ajuda, basta abri-las e percebemos que não se dão receitas: a poesia é, como diz Manoel de Barros, um "inutensílio". E, sendo isso, para tanto nos serve.
A minha ficou uma pequenina antologia de poemas, provenientes de vários livros com mais um inédito,  à volta (talvez) de coisas cósmicas- digamo-lo assim, que cabe tudo. O búzio da Ana Abreu ajuda muito.




http://www.correiodoporto.pt/a-bula/a-bula-de-maio

clicar na imagem






quinta-feira, 31 de março de 2016

sublinhados & notas



existe e está aqui e então acaba  | Roberto Taddei | col. pequenos exílios | Dobra Editorial | São Paulo, 2015



LITERATURA: MODO DE USAR

É esta uma narrativa deliberadamente pouco exemplar e quase nada edificante, mas é a prova provada de que os livros chamam os livros, muito em particular os clássicos, sem esconder como eles continuamente se entendem e desentendem com a vida.

Por alguma razão me ficou na memória uma passagem da muito peculiar autobiografia de Barthes, Roland Barthes por Roland Barthes (Lisboa, Edições 70, 1976), num segmento que intitulou "O tempo que está" (p. 212). De novo ela se me impôs, agora em diálogo com este belo livro que integra a colecção "pequenos exílios" da Dobra Editorial, de São Paulo. Conta Barthes que, de férias na província, uma padeira com quem se cruza comenta  que "continua a estar bom tempo!", ao que ele terá acrescentado "e a luminosidade é tão linda!". A padeira não responde e o autor constata que houve um curto-circuito de linguagem e que "ver a luminosidade" provém duma perspectiva de classe. Diz ele: "Em resumo, nada mais cultural do que a atmosfera, nada mais ideológico do que o tempo que está."

A narrativa de Roberto Taddei faz-se também destes choques entre o erudito e o popular, a literatura e a natureza, e a sua não exemplaridade deriva precisamente do propósito de, sem disfarces, vincar uma suspeita fundamental acerca da capacidade de adesão dos livros e da arte ao mundo natural e humano.


De alguma forma, a missão que o narrador-professor se impôs, a de ensinar os grandes clássicos naquelas paragens do agreste pernambucano, faz da personagem uma espécie de improvável anti-herói de uma não menos inesperada anti-epopeia. Desta missão que se vai afigurando impossível, há sequências verdadeiramente antológicas. Talvez o essencial se possa sintetizar no desabafo de Zé Diacho, o formando que logo no nome transporta o pecado da contradição: "Num aperto desses (...) como é que se vai falar de literatura, diacho?" (p. 21). Ou recordemos (um exemplo apenas entre muitos) como o narrador não pode deixar de concluir, com a sombra de uma frustração, que "A noite no agreste de São Joaquim do Monte não tinha nenhum sortilégio, só pererecas (...)" (p. 33); ou então ainda como o protagonista, na biblioteca local, em demanda dos livros que possam falar da história da cidade, se confronta com uma interlocutora para quem a urgência é o feijão no fogo (p.34). Na vida do narrador, talvez como na vida tout court, o sublime e o trivial não podem deixar de coexistir, mas tudo isso se percebe melhor num lugar como São Joaquim do Monte. Quanto às bibliotecas, mesmo sem Babel, não deixam de ser todas como aquela-  por definição e contingência,  total enigma e denso labirinto.
 

sábado, 26 de março de 2016

O aprendiz de FEITICEIRO
teorias portáteis sobre poesia

 outras teorias portáteis sobre poesia aqui



 LUPA E GRÃO DA VOZ

"La última costa" de Francisco Brines.
Parece-me este vídeo uma boa síntese do que é a poesia. Um autor que é seu leitor, que tem de decifrar as suas próprias, tão íntimas palavras, o seu próprio passado, recriá-lo multiplicando os olhos, num saber das últimas e das primeiras coisas. Ver muito, ver pouco. Um poema perfeito e bem arrumado no seu livro, mas o imenso grão da voz.




http://cultura.elpais.com/cultura/2015/11/23/babelia/1448293850_921270.html?id_externo_rsoc=FB_CC
clicar na imagem






quinta-feira, 11 de fevereiro de 2016


OTERCEIROTEXTO


Do meu projecto de tradução para português de poemas da irlandesa Sineád Morrissey, que tenho divulgado na Enfermaria 6, desta vez "Shostakovich", que pertence ao último livro, Parallax.

Poesia, música, política, e o cruzamento de tudo isso. Questões de ressonância. Disse Sinéad, numa entrevista, sobre este poema:


"In Shostakovich, for example, the parallax is the way in which sound could be doubled. I'm thinking of how Stalin liked his fifth symphony after hating his opera, which made it approved Soviet music. But so many people say it is not, that there is an undertone of mocking, that Shostakovich is doing something incredibly sophisticated. The parallax there is that music can have two meanings."






domingo, 3 de janeiro de 2016

das palavras dos outros







fernando guimarães / in Na Voz de Um Nome, Roma Editora, 2006



JARDINS DE UPSALA

Não chegou ainda a noite. Tudo se torna mais sereno. Ele vem aí;
trata-se certamente de Lineu. Olha para os lados e assim caminha
por entre os canteiros. Os seus olhos conhecem as plantas adormecidas,
o grande leito feito de terra, o murmúrio que há-de vir
através do sono. Ele sabe que tem de estar atento. Toca com uma das mãos
os estames, algumas pétalas. O vento faz o mesmo. O pólen solta-se
e acaba por se espalhar no chão. Há um perfume mais intenso. Continua
sem parar o seu caminho. Olha à sua volta. Limita-se a registar as semelhnaças
ou as diferenças. O jardim existe no seu espírito. A pouco e pouco, as espécies
e os géneros recebem nomes desconhecidos. Os caules oscilam. Pousa uma ave
no ramo de uma árvore. Mesmo em baixo, talvez venham mais tarde colocar
uma lápide: "Cupressus L." Reconhece-a agora e principia a sentir a verdura
ainda leve, primaveril. Anota qualquer coisa, apenas um pormenor. A seiva
atravessa devagar as páginas desse caderno e chega até às suas mãos.





daniel moreira
"quando a noite cai sobre a floresta" (2014)
grafite sobre papel 29,7x21 cm



   imagem vista aqui 




terça-feira, 1 de dezembro de 2015

 # Em Agenda #


Na mais recente edição do Jornal de Letras (nº 1178, 25/11 a 8/12/2015), na sua "Crónica de Poesia", Fernando Guimarães escreve sobre O Segundo Olhar- poemas escolhidos de Inês Lourenço, num texto intitulado "Segundos Olhares", em que também aborda um livro de José Ricardo Nunes e uma tradução de Lauren Mendinueta por Ricardo Marques.








 (para ler, clicar nas imagens)






segunda-feira, 16 de novembro de 2015

# Em Agenda #










Inês Lourenço 
O Segundo Olhar - poemas escolhidos


selecção, organização e posfácio de
José Manuel Teixeira da Silva 





Companhia das Ilhas  aqui
colecção azulcobalto | 031 
ISBN 978-989-8592-99-6
Páginas 200 | PVP 14 




quinta-feira, 5 de novembro de 2015

das palavras dos outros




  daniel francoy  / in blogue O Céu Vazio (aqui)


 MADRUGADA

Na cozinha adormecida  
há um peixe reduzido apenas
à cabeça e à espinha.
Ao lado, por lavar, duas taças
com um resto de vinho
cristalizado no fundo.
O demônio, quando passa,
deixa um reflexo de luar
refletido no brilho dos talheres.
O tempo, na sua ânsia
de ampulheta, deposita
um punhado mínimo de areia
no fundo das taças limpas.






Oscar Rabin
Natureza Morta com peixe
 e Pravda





quinta-feira, 8 de outubro de 2015


OTERCEIROTEXTO


Mais um poema para o meu projecto de tradução para português da obra da irlandesa Sineád Morrissey, que tenho divulgado na Enfermaria 6. Desta vez "Baltimore", que pertence ao último livro, Parallax.


In other noises, I hear my children crying-
in older children playing on the street 
past bedtime, their voices buoyant
(...)


Noutros barulhos, ouço os meus filhos a chorar-
em crianças mais velhas que brincam na rua
fora de horas, nessas vozes que vêm
(...)