poesia . fotografia . & etc.

Talvez o mundo não seja pequeno / Nem seja a vida um fato consumado . Chico Buarque de Hollanda, com Gilberto Gil








terça-feira, 20 de janeiro de 2015

processos sumários

 

 
FUMOS


Começa a noite a cair
visivelmente e as crianças
descobrem-se muito antigas

O frio é apenas frio
empurra, solene, as estrelas
que riscam o breu


Nem só dos galhos tudo partia
e era preciso explicar outras matérias
prender os fumos na lã das camisolas
com gestos delicados e caixinhas de alfinetes


No fim, os bons conselhos
enquanto arrumavam 
crepes retintos e sudários


Uma espécie de gaze na paisagem
os olhos condoídos em ferrugem
quase etérea, quase bela
faúlhas que ardiam ao voar

jmts


 Hein Koh- Halo, 2010
 visto aqui




quinta-feira, 8 de janeiro de 2015

das palavras dos outros






e. ethelbert miller / in Falta de Ar, Medula, 2014
 tradução de manuel a. domingos



POSTAIS


Quando foi a última vez que enviaste um postal?
A minha mãe guardou todos os que lhe enviei. A minha irmã
enviou-mos quando a minha mãe morreu. Tinha-me esquecido
que escrevera tantas pequenas notas à minha mãe. O preço dos
selos estava constantemente a mudar. Dizia sempre que estava
a divertir-me. Lembro a primeira vez que menti à minha mãe.
Foi uma pequena mentira talvez do tamanho de um postal.
Tinha ido a um lugar aonde não era suposto ir. Disse à minha
mãe que estivera na biblioteca mas tinha estado com a Judy
naquela tarde. A sua pequena mão dentro da minha mão. Começava
a sentir algo sobre o qual nunca conseguiria escrever para casa.







Doug Beube, série Vector
(2007)





imagem vista aqui

segunda-feira, 29 de dezembro de 2014

processos sumários

 



ACERCA DA PERFEIÇÃO

São importantes as memórias de infância
Escrevemos sempre a partir de exemplos
e, durante algum tempo, os factos
confirmavam a vida imaginada

Havia, nesse livro antigo, um fotógrafo
excelente, no lugar do nome estava escrito  
anon, e era o mais distinto autor
Variedade pródiga das paisagens
flores explícitas, animais que estacavam
e exibiam o carácter selvagem
a nudez profunda e nua dos modelos
Os instrumentos da vida estavam 
só cansados de trabalhos
e de dias, abriam-se em sol
e nas devidas sombras

Alguém acaba por vir explicar
e era afinal uma cifra abreviada
expediente para dizer anónimo
despojos da verdadeira arte

Segundo exemplo, a música
que nos soava muito para lá
do número divino, a esplêndida
sétima daquele a quem chamavam
o enorme mestre de Bona

Logo percebemos que era versão
incompleta e, nos visíveis sulcos do vinil
acrescentaram um andamento
de uma oitava ainda não composta

Isto é, etiquetas que enganam
erros no momento de imprimir

Também se escrevem poemas
acerca da perfeição


jmts






 Emma McNally
visto aqui 






quarta-feira, 17 de dezembro de 2014

música de anónimo



Música de Anónimo é um ciclo poético de que aqui se divulgou a maior parte dos textos, ao longo de meses. São os poemas que escrevi entre 2001 e 2009, anteriores a Anima e a O Lugar Que Muda o Lugar, ambos publicados na Língua Morta. Foram esses poemas o pretexto que fez criar este blogue, para que não ficassem apenas na sombra de uma gaveta ou no caderno de rabiscos e imagens, onde estavam, aliás, muito confortáveis. 

Viajam agora para uma edição da Companhia das Ilhas, daqui a algum tempo. Gostam da liberdade de se mudarem de lugar e da ilusória sensação de serem perseguidos.








domingo, 7 de dezembro de 2014

o lugar que muda o lugar




Na página pessoal (aqui) acrescentou-se aos textos já arquivados uma nova leitura sobre O Lugar que Muda o Lugar, da autoria de José Ángel Cilleruelo. A referência está incluída na sua recente publicação Almacén. Dietario de Lugares. Polibea, Madrid, 2014, pp. 53-56. 




http://subito-jmts.blogspot.pt/search?q=Jos%C3%A9+%C3%81ngel+Cilleruelo





terça-feira, 11 de novembro de 2014

Piscinas

 desenho de Ana Abreu 




É água, apenas a serena água
feita de buracos negros, turvações
flechas que rebrilham na sua quietude

Convém sabermos de fundos e correntes
da linha polida do nadar trazendo
os limos da maré e a fricção das ondas

Mergulhar no corpo que nos afoga em nós
tornar suspensa a vida nesses trilhos de água


jmts




ana abreu




sábado, 1 de novembro de 2014

das palavras dos outros






gastão cruz / in O Pianista, Limiar, 1984



O TEATRO DAS CIDADES


Qualquer tempo é um tempo duvidoso
assim o meu cercado de cidades
plataformas instáveis
praticáveis cobertos de infinita gente náufraga
que se inclina nas águas como um palco

Paro na convergência dos estrados
chove já sobre a raça ameaçada
Incertas multidões em volta passam
contemporâneas falam interpretam
a duvidosa língua das imagens

Assim no teatro abstracto das cidades
morrem palavras sobre um palco náufrago

O tempo cobre o céu que se enche de água





René-Jacques
L'Homme de nuit, 1939






sexta-feira, 10 de outubro de 2014

 Piscinas

 desenho de Ana Abreu 




O temporal agitará as piscinas
chegarão pequenos corvos, coloridos
pássaros nas escadas úteis, praticáveis

Vem da baleia branca o ronco das máquinas
estalam depois as barreiras, uma a uma
ceder de paredes, as sucessivas ondas

A água inteira será só a do mar
levando o mar, bandeiras, mínimos sinais


jmts



 ana abreu





 

sábado, 20 de setembro de 2014

processos sumários

 


NIAGARA
[Bert Stern, The Last Sitting, Marilyn]

Recuso esta imagem, faz lembrar
o quarto sossegado sobre a catarata
e os olhos presos ao abismo luminoso

Seria isso um filme, os pássaros 
despertavam muito cedo, uma cena 
perfeita abandonada na versão final
Repetiam-se os sonhos, havia impermeáveis
de amarelo vivo entre as cordas de água
e sobravam sapatos alinhados nos cacifos
Só para que o corpo caísse lento
e elegante, de pedra em pedra
até ao derradeiro esparrinhar
Estava depois escrito o nome fim

Recuso-a com um dedo de sangue
se tudo é apenas a nudez mais despida
e pronta para o tacto, as inocentes pisaduras
Sei que acham bela a gravidade
dos seios que começam a pender
o aproximar das pernas unidas 
no ponto onde acaba o retrato

Adereços que daqui a pouco
digamos, seis semanas
se vão desvanecer
deixando alguma espuma
 
jmts




Bert Stern







quinta-feira, 11 de setembro de 2014

das palavras dos outros





rosa maria martelo / in Matéria, Averno, 2014


CORTES


Sobre a mesa iluminada pela luz da tarde, uma jarra de flores expõe a beleza cortada, agonizante, assassinada pelo amor da beleza, que a trouxe para dentro de casa, para morrer. Muito juntas, as flores sobrevivem ainda, e encenam no pouco tempo que resta o mundo de onde vieram. Parecem vivas, quase deixam esquecer que são o grande ramo da morte a emergir de um frasco transparente. A contemplação da beleza: acredita na suspensão absoluta do instante, mesmo se tudo em volta lhe diz que não é bem disso que se trata. Repara, alguns ramos já começam a secar.






Emily Dickinson, Herbarium 
(circa 1839-1846)




  imagem vista aqui



terça-feira, 29 de julho de 2014

segunda-feira, 14 de julho de 2014

Parábola Óptica
teorias portáteis sobre fotografia





Pascal Anders ou Da Ocupação dos Lugares


Pascal Anders 
New York City, 2010
Alphabet City, 2011
Paris Est Tout Petit., 2011
Lothringen, 2013


São quatro dos livros do fotógrafo (ver aqui). Edições de autor, chegam-nos pelo correio, em envelopes sóbrios mas personalizados, tamanho de bolso. O grafismo é depurado e de discreto efeito, e podemos encontrar elementos adicionais: provas numeradas, a reprodução de um postal ilustrado. Estes ensaios fotográficos perseguem a comunicação, buscam novos leitores e olhares, há neles um efeito claro de imersão no mundo, mas sem comprometer a busca e o rigor estéticos. São convites a aproximarmo-nos dos lugares e a conhecê-los- contudo, estamos nos antípodas do guia turístico ou de qualquer amena deambulação.
Impõe-se uma distinta personalidade fotográfica nestes livros que reinventam a estética da “street photography” (particularmente os ensaios dedicados a Nova Iorque e a Paris) ou o inquérito de matriz sociológica, em que uma aparente neutralidade do olhar procura revelações e intensidades (em Alphabet City e, de forma mais evidente, em Lothringen).
Percorridos em conjunto, explicam-nos e exemplificam diferentes estratégias dessa arte maior da fotografia que é a da ocupação dos lugares, e que se iniciou quando Louis Daguerre, num dia de 1839, experimentando uma nova tecnologia, decide dirigir a sua atenção para o Boulevard du Temple, em Paris. E lá estavam uma paisagem urbana, pelo menos dois figurantes humanos, uma ordem social, a vida que já corria.

Em New York City (2010), depois da plácida panorâmica inicial, transposto o rio, vamos penetrar na silhueta negra da cidade. As fotografias ocupam todo o espaço das páginas duplas e não vão permitir que o olhar serene. O contraste é muito forte, temos algumas chapas de luz e o gelo das sombras. Estabelece-se uma atmosfera que apetece chamar de bárbara beleza, um tanto subsidiária da estética cinematográfica de uma câmara de mão.


Estamos sempre demasiado próximos, como se nos fosse retirada a hipótese de um tempo de reacção e nos surpreendesse a vertigem de um lugar. O fotógrafo expulsa-nos de todo o espaço de conforto e a composição das imagens privilegiará os planos inclinados, as perspectivas instáveis.
Estas fotografias colocam-nos a questão de gerir o caos, de compreendê-lo ou sobreviver-lhe, envolvidos que estamos por uma multiplicidade de índices sociais e até raciais. Há em tudo uma pulsação simultaneamente pública e íntima e o mapa da cidade parece fazer-se de uma espécie de densa esgrima de olhares. Os “graffiti” surgem como se fossem verdades instantâneas e precárias, surpreendendo o espectador em busca de uma sintaxe e de um sentido para os elementos aleatórios da cidade. É uma estética que se faz de vedações, gradeamentos, linhas divisórias, perímetros de segurança, e em que circulam figuras que nos aparecem frequentemente a três quartos, no celebrado e dinâmico “plano americano”.
O livro sugere-nos um devaneio final: a noite cai, envolve o Chrysler Building; a banda sonora será de um jazz trepidante, com um solo áspero e lírico; e, se na última imagem lemos (enfim) “peace”, é apenas uma palavra de difícil e ilusória interpretação.








Em Paris Est Tout Petit. (2011) encontramos grandes afinidades com o livro dedicado a Nova Iorque, mas o efeito global é substancialmente diferente. De alguma forma, passamos de um ponto de vista exterior para a tentativa de sugerir a instalação num lugar íntimo ou natal. É como se captássemos em duas grandes metrópoles o seu timbre distintivo, um personalizado mas indefinível modo de existir e de se manifestar. (Novo delírio: ouvimos agora “Gymnopédies” de Eric Satie,  uma banda sonora para caminhar com serenidade, languidez e algum sobressalto.) 




quinta-feira, 26 de junho de 2014

  # Em Agenda #













Amadeu Baptista | Andreia C. Faria | Catarina Santiago Costa | César Rina | Daniel Francoy | Dirceu Villa | Duarte D. Braga | Emanuel Amorim | Fernando Guerreiro | Isabel Milhanas Machado | João Miguel Henriques | João Moita | José Manuel Teixeira da Silva | Luís Ene | Manuel A. Domingos | Miguel Cardoso | Nuno Brito | Patrícia Lino | Paulo Kellerman | Paulo Rodrigues Ferreira | Raquel Nobre Guerra | Rui Almeida | Samuel Filipe | Tatiana Faia | Victor Gonçalves | Victor Heringer | György Petri / João Miguel Henriques et al (trad.) | Nick Laird / Hugo Pinto Santos (trad.) | Salvatore Quasimodo / João Barcelos Coles (trad.) | Cassandra Jordão
Capa: João Alves Ferreira

Enfermaria 6, Lisboa, Junho de 2014, 124 pp.

 Uma versão impressa deste livro pode ser comprada na Fyodor Books ou 
enviando encomenda para enfermariaseis@gmail.com.





terça-feira, 17 de junho de 2014

processos sumários

 


DAS OCORRÊNCIAS

Nunca te ocorre
protestar contra o tempo
nuvens, bater de janelas
o banho do sol

Apenas registar as ocorrências
se alheias, e íntimas, são as razões

Chega a ventania por dentro
das paredes, a insuspeita
transparência da névoa
chuva de um lado e do outro 
lado dos vidros

A luz existe e ilumina-se
essa única disposição
de cercar as aves

Podes também partir
que algo ainda ocorrerá 
na desdobrada cidade
dos estendais vazios
 


jmts




Emma McNally
visto aqui 







quinta-feira, 22 de maio de 2014

Alguns sacos de água 
com seres que vieram da prai
                
                                                             desenhos de Ana Abreu




3.

Do mar a transparência
que a água em si retém
recomeçada e turva

O que partiu revela
outras densidades
(memórias e antenas)
apura íntimas correntes
como se em tudo regressasse

Ou fica por colecções
de etiquetas e figuras
esperando matérias carcomidas
(da maresia os ossos pequeninos)
e haverá quem diga que

ninguém nos ensina
e está ali o mar


jmts






 ana abreu